Produção industrial parece entrar em fase de ajuste

A produção industrial, que havia apresentado, em termos dessazonalizados, um crescimento de 3,4% de fevereiro para março (dados corrigidos), teve um recuo de 0,7% no mês de abril, mas no primeiro quadrimestre (sem ajuste sazonal) o crescimento acumulado foi de 18%.

, O Estado de S.Paulo

02 Junho 2010 | 00h00

É normal que se indague se esse recuo de abril deve ser interpretado como o início de uma nova tendência, ou se é apenas uma acomodação a um excesso de produção em relação ao mês anterior. Quando se examinam os dados por categoria de uso, parece que a segunda interpretação é a que mais se aproxima da realidade.

Há um fato que merece atenção especial: o maior crescimento, no mês de abril, foi da produção de bens de capital em geral (2,4%), indicando que a indústria continua investindo, o que não seria o caso se houvesse uma perspectiva de queda das vendas. Se é verdade que o maior aumento foi nos bens de capital para a construção civil, o dos destinados a fins industriais é significativo.

Os bens intermediários, que são em grande parte absorvidos pela produção industrial, apresentam crescimento, com ajuste sazonal, de 0,5%. Seria de estranhar o crescimento de 0,5% dos bens de consumo duráveis, considerando a queda nas vendas dos carros depois da volta do IPI, que foi de 1,7%. Na realidade, essa queda foi compensada pelo aumento da produção da linha branca (geladeiras e lavadoras) e mais ainda da linha marrom (especialmente TVs e rádios) em vista dos jogos da Copa do Mundo na África do Sul.

O único setor que apresenta queda (de 0,8%) é o dos bens de consumo não duráveis, que provavelmente sentiu os efeitos da crise europeia nas áreas de alimentação e têxtil.

Tudo indica que a produção industrial em maio continuará crescendo com os reajustes salariais ? especialmente do funcionalismo ? e com a elevação da renda dos assalariados em razão de uma situação próxima do pleno emprego.

Será, certamente, somente a partir do terceiro trimestre que a produção industrial começará a sentir os efeitos de uma inflação maior, de um aumento das taxas de juros e de um maior controle dos gastos públicos, quando poderemos registrar um certo recuo do setor ? que poderá vir acompanhado de um ligeiro aumento do desemprego.

A elevação do preço de algumas commodities (como o minério de ferro) terá o efeito de alimentar a inflação, que o governo poderá esconder com uma nova onda de despesas de investimentos, cujo financiamento será cada vez mais difícil.

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