Projeção externa do Brasil

Ao buscar convencer o Irã a assinar um acordo sobre o reprocessamento de urânio, com o objetivo de afastar suspeitas sobre um programa nuclear militar, o Brasil chamou a atenção para a sua disposição de influir para além dos limites da América do Sul.

Rubens Barbosa, O Estado de S.Paulo

22 Junho 2010 | 00h00

Com o fim do unilateralismo, vêm surgindo novos polos de poder no mundo, que a crise econômica se encarregou de acelerar. E o Brasil foi um dos países que mais se beneficiaram dessa nova desordem internacional.

Como entender a crescente projeção externa do Brasil? E que fatores podem explicar o espaço que o País está conquistando no mundo?

Em primeiro lugar, há vários fatores internos. O mais importante é a estabilidade política e econômica alcançada ao longo dos últimos 16 anos. Ao mesmo tempo que a democracia e as instituições foram fortalecidas, o Brasil cresceu a taxas mais elevadas, resultado da continuidade de políticas que mantiveram a inflação baixa e estável, a situação fiscal sob controle e o câmbio flutuante. Houve significativa redução da pobreza e 31 milhões de pessoas ingressaram na classe média, trazendo uma rápida expansão do mercado consumidor.

A liberalização comercial e a internacionalização das empresas brasileiras são exemplos de como a nossa economia se modernizou. A diversificação do setor industrial e de serviços acompanhou o grande crescimento do setor agrícola, altamente competitivo e com marcante presença no mercado internacional. Pela diversificação de seu comércio exterior, o Brasil considera-se hoje um "global trader".

A estabilidade, somada a um atraente mercado doméstico em expansão, contribuiu para que o Brasil venha sendo percebido de forma cada vez mais positiva. A redução do risco País e a concessão do grau de investimento pelo setor financeiro muito reforçaram as projeções favoráveis sobre a economia brasileira.

A reorganização produtiva global colocou a China e o Brasil como motores do crescimento da produção de bens industriais e agrícolas. Os dois países são, em grande parte, responsáveis pela cada vez maior presença dos mercados emergentes no cenário internacional.

Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, nossos dois últimos presidentes, cada um ao seu estilo e por seus contatos no exterior, história de vida e facilidade de interagir com os demais chefes de Estado, contribuíram para aumentar a visibilidade do Brasil no exterior.

A voz do Brasil não pode mais ser ignorada nos temas globais de interesse dos países desenvolvidos, como comércio exterior, mudança de clima e meio ambiente, energia (biocombustível e petróleo), segurança alimentar, água e direitos humanos. O Bric, que juntou o Brasil, a China, a Rússia e a Índia num só bloco, tornou-se uma das grandes novidades no cenário internacional nos últimos anos.

O tradicional envolvimento da diplomacia brasileira em organismos multinacionais acentuou a imagem do País como formador de consensos e negociador isento. A harmonia étnica e religiosa e o papel de moderador que o Brasil exerce na conturbada América do Sul também passaram a chamar atenção no mundo.

O maior ativismo da política externa do governo Lula na América do Sul, na África e no Oriente Médio, em virtude da prioridade atribuída ao relacionamento com os países do Sul (relações Sul-Sul) resultou na crescente presença externa do Brasil como potência regional com capacidade de atuação regional e global.

Ao contrário dos outros membros do Bric, o Brasil não tem capacidade nuclear. Esse fato, associado às posições independentes na defesa de seus interesses, permitiu ao governo brasileiro margem de manobra nas suas incursões em disputas até aqui reservadas exclusivamente aos países desenvolvidos.

O Brasil também se engajou na reforma da governança global. No âmbito do G-20, mecanismo de consulta que gradualmente vem substituindo o G-8, o País tem sido uma voz estridente a favor da maior participação dos países emergentes no Banco Mundial e no Fundo Monetário Internacional (FMI). O País vem há vários anos defendendo uma ampla reforma dos mecanismos econômicos e políticos da ONU e sugerindo a ampliação do número de membros permanentes e não-permanentes do Conselho de Segurança, de modo a que haja maior peso e representatividade no diretório que zela pela paz e pela segurança internacional.

Por esses motivos, internos e externos, o Brasil de hoje, confiante e afirmativo, procura ampliar a sua atuação externa. Nesse contexto, o Mercosul, sob o aspecto comercial, e a América Latina, do ponto de vista político, estão ficando pequenos para os interesses globais do nosso país.

O Brasil depende apenas de vontade política para fazer as reformas estruturais ? tributária, política, da Previdência Social e trabalhista ? e completar o seu processo de modernização. Essas reformas são necessárias para permitir o nosso grande salto para a frente, que poderá elevar-nos, nos próximos 15 anos, à categoria de superpotência econômica global, segundo previsão de alguns governos e instituições, como o National Intelligence Council, do Departamento de Defesa dos EUA.

O apressado desejo de protagonismo internacional para fins de política interna eleitoral põe em xeque alguns dos pressupostos mencionados. São equívocos de nossa política externa que podem vir a prejudicar um caminho de afirmação madura no mundo, que uma bem-sucedida realização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos poderiam estimular ainda mais.

A correção desses desvios será necessária para que a voz do Brasil seja ouvida de forma crescente e com seriedade no palco mundial.

EX-EMBAIXADOR EM WASHINGTON (1999-2004)

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