Promessas contra a inflação

Com a inflação acima de 6% ao ano e quase batendo no teto da meta, a presidente Dilma Rousseff e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, decidiram falar sobre o assunto e prometeram usar todos os meios para conter a alta de preços. "Todas as nossas atenções estarão voltadas para o combate acirrado à inflação", disse a presidente na segunda-feira. Ontem ela voltou a tratar do tema, durante reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, em Brasília. O ministro cuidou mais longamente do problema, na mesma ocasião, mas, como de costume, insistiu em ressaltar suas causas externas, passando rapidamente sobre os desajustes internos.

, O Estado de S.Paulo

27 Abril 2011 | 00h00

O presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, referiu-se às pressões inflacionárias como um dos dois maiores desafios para a instituição, sendo o outro o grande afluxo de capital estrangeiro. Somados os comentários e promessas, nenhum deles conseguiu transmitir um recado tranquilizador.

O governo mudou nos últimos dias seu discurso a respeito da inflação. A presidente e as principais autoridades monetárias passaram a exibir maior preocupação com o problema depois da divulgação, na última semana, de números assustadores. Esses números apenas confirmaram uma tendência já observada e bem conhecida fora do governo, mas nunca, aparentemente, levada muito a sério em Brasília.

O ministro da Fazenda talvez esteja mais preocupado, agora, do que parecia até a semana passada. Mas não muito. Em sua fala na reunião do Conselho, ele se empenhou principalmente em apontar as fontes externas de inflação, mencionando o encarecimento dos produtos agrícolas e de outras matérias-primas e o excesso de dinheiro criado nos países do mundo rico.

Mas o próprio ministro mencionou, muito ligeiramente, a importância de limitar os efeitos da inflação importada, impedindo o contágio dos demais preços internos. Ele não explorou esse detalhe e, no entanto, esse é um ponto importantíssimo. A contaminação já ocorre, é indisfarçável e tem sido facilitada pela forte expansão da demanda interna. Segundo os últimos dados, mais de 60% dos preços têm aumentado. A porcentagem de preços em alta tem variado, mas com frequência tem ficado na vizinhança de dois terços dos itens pesquisados. Não se pode, portanto, falar de uma inflação causada apenas, ou principalmente, por desajustes no mercado global de matérias-primas.

O presidente do BC, Alexandre Tombini, mencionou vagamente "componentes locais" da inflação, mas também não detalhou seu comentário. Reconheceu, no entanto, a dificuldade de levar a inflação para o centro da meta - 4,5% - até o fim de 2012. Será necessário, afirmou, "um esforço redobrado". O plano do BC de combater gradualmente a inflação já era conhecido.

Mas esse gradualismo se tornou especialmente preocupante desde a semana passada, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) adicionou apenas 0,25 ponto porcentual aos juros básicos, apesar dos claros sinais de aceleração da alta de preços.

Até agora, o aumento de juros e as limitações à expansão do crédito produziram pouco ou nenhum efeito. O BC, no entanto, parece disposto a continuar confiando nas chamadas "medidas macroprudenciais" e moderando a elevação dos juros. Mas aquelas medidas parecem ter sido muito leves. Para a maior parte dos consumidores, limitações do crédito são pouco eficazes, se as prestações são numerosas e cabem no orçamento mensal.

O ministro da Fazenda referiu-se também ao ajuste das contas públicas como forma de conter a expansão da demanda. Mas o superávit primário continua resultando principalmente do aumento da arrecadação e as diretrizes orçamentárias propostas para 2012 passam longe de qualquer aperto real da despesa.

Investir e aumentar a produção, como disse a presidente, são medidas importantes para garantir o crescimento seguro e sem inflação. Isso é verdade, mas essa condição vale para o médio e o longo prazos.

A curto prazo inflação se combate com medidas conjunturais. Contemporizar só agrava o problema.

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