Promissor acordo

Após 20 meses de negociação, o Irã chegou a um acordo com as principais potências mundiais – Estados Unidos, China, Grã-Bretanha, França, Alemanha e Rússia –, comprometendo-se a não enriquecer urânio para a produção de armas nucleares e a aceitar inspeções completas em suas instalações. Em troca, após o cumprimento das condições do pacto, as sanções econômicas e financeiras impostas a Teerã desde o final da década de 70 serão progressivamente suspensas. O resultado das negociações vai, no entanto, muito além das bombas atômicas e pode significar uma nova etapa da relação do Irã com o Ocidente e um reequilíbrio das relações no Oriente Médio.

O Estado de S. Paulo

16 Julho 2015 | 03h00

Não foi pouco o que o Irã teve de ceder para ouvir o compromisso de que as sanções impostas ao país seriam suspensas. Nos próximos 15 anos, Teerã poderá enriquecer urânio a apenas 3,67% e somente na Usina de Natanz. Posteriormente, a produção poderá aumentar, mas sempre para uso civil. Terá também de reduzir seu atual estoque de 7 mil quilos de urânio enriquecido para apenas 300 quilos. Comprometeu-se ainda a ratificar tratados internacionais que, por 25 anos, permitirão o acesso de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) a suas usinas e reatores, bem como a suas instalações militares. Na prática, o acordo impede que o Irã tenha acesso à tecnologia para construir uma bomba durante pelo menos uma geração.

Para o acordo se efetivar, ainda são necessários alguns passos. Na semana que vem, o texto será submetido ao Conselho de Segurança da ONU. No entanto, a prova de fogo do acordo ocorrerá no Congresso norte-americano, que tem prazo de 60 dias para aprová-lo e onde muitos republicanos não veem com bons olhos a política externa de Obama. Há também o desafio do próprio Irã, que precisa adotar as medidas que limitam seu programa nuclear. No entanto, o preço do descumprimento do acordo por parte de Teerã é alto. Hoje há seis sanções do Conselho de Segurança da ONU contra o país e sua suspensão deve significar a injeção de US$ 100 bilhões na economia iraniana – um estímulo para Teerã atuar responsavelmente.

Tido como a maior façanha diplomática do governo Obama, o acordo sofre forte oposição. O governo israelense classificou o pacto de “erro de proporções históricas” e tenta pressionar o Congresso norte-americano para que não o aprove. Por essa razão, Obama tem insistido em que “o acordo não tem por base a confiança, mas sim a verificação”.

Em entrevista ao jornal New York Times, o presidente americano esclareceu que o objetivo do acordo não é mudar o regime iraniano. “Estamos medindo esse acordo – e essa era a premissa original dessa conversação, incluindo o primeiro-ministro (israelense) Netanyahu – pelo objetivo de impedir o Irã de fazer uma bomba nuclear. Essa sempre foi a discussão.” Ou seja, trata-se de mostrar o acordo como um caminho sério para a paz, e não apenas como um gesto de boa vontade com um país que se mostrou, ao longo dos anos, sem nenhuma boa vontade. Por exemplo, o governo iraniano financiou grupos terroristas na Síria e no Líbano.

O acordo tem alta repercussão econômica, e não apenas para os iranianos. Com 80 milhões de habitantes – e 70% da população com menos de 30 anos –, o Irã é um mercado promissor e deve atrair altos investimentos estrangeiros. Significa também a volta plena ao mercado da quarta reserva de petróleo do mundo e que tem, hoje, mais de 40 milhões de barris em estoque.

Suspender as sanções a Cuba tinha um alto valor simbólico, mas pouco risco aos EUA. No caso do Irã há sérios riscos, a começar pela reação de Israel. No entanto, o esforço conjunto para evitar o agravamento das tensões naquela região deve ser aplaudido. Muitos problemas permanecem. Afinal, um acordo não apazigua 35 anos de hostilidade entre o Irã e o Ocidente, mas abre caminho para uma nova era.

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