Propostas consistentes

Os desafios do País são enormes e cabe ao eleitor definir como deseja enfrentá-los, mas há candidatos que pensam não ser necessário apresentar propostas

O Estado de S.Paulo

16 Junho 2018 | 03h00

Daqui a quatro meses, a população terá de escolher o próximo presidente do Brasil. O primeiro turno das eleições é no dia 7 de outubro e o segundo turno, no dia 28 do mesmo mês. No entanto, apesar do pouco tempo que resta, o cenário eleitoral continua repleto de grandes indefinições. A rigor, não se pode nem dizer que o eleitor esteja indeciso, pois ainda não lhe foram apresentadas opções dignas de consideração.

Oficialmente, a campanha eleitoral começa no dia 15 de agosto, quando se encerra o prazo para as inscrições das candidaturas na Justiça eleitoral. Até essa data, a lei proíbe pedir votos. Isso não impede, no entanto, que os partidos e os pré-candidatos possam apresentar desde já suas propostas para o País. Na realidade, mais do que uma possibilidade, essa comunicação clara com a população é um dever de quem deseja participar do processo eleitoral. As próximas eleições são muito importantes para que se deixe o eleitor no escuro até, por exemplo, o dia 31 de agosto, data em que se inicia a propaganda eleitoral no rádio e na televisão.

As ideias e os projetos dos candidatos devem ser apresentados ao eleitorado o quanto antes. E aqui se faz referência a propostas consistentes, não a meros slogans. É um tremendo risco para a democracia uma escolha baseada em slogans, já que na prática esse tipo de campanha – que não apresenta propostas, mas tão somente refrões e gritos de ordem – impede que o eleitor determine o rumo concreto que deseja dar ao País. Frases de efeito não definem políticas públicas, mais servindo para iludir o eleitor.

Infelizmente, é a engabelação, que despreza a inteligência do eleitor, o que tem se destacado até agora. Na sexta-feira passada, o PT anunciou o lançamento da pré-candidatura de Lula da Silva. Ainda que esteja preso em Curitiba e impedido de ser candidato, por força da Lei da Ficha Limpa, o ex-presidente diz que, se for eleito, “o Brasil vai ser feliz de novo”. O refrão da campanha é “chama que o homem dá jeito”.

É um desrespeito ao eleitor imaginar que ele irá se esquecer de tudo o que o PT fez quando esteve no poder federal – todos os casos de corrupção, toda a apropriação da máquina pública, toda a crise moral, social e econômica produzida pelo lulopetismo. Mas é igualmente um desrespeito ao eleitor pretender que ele vote baseado em ilusões, enganado pela demagogia e pelo populismo. O tratamento que o PT dispensa ao eleitor confirma uma vez mais sua natureza antidemocrática.

O mesmo ocorre com o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que tem promovido em várias cidades encontros com apoiadores, quase sempre a portas fechadas. Não teme dizer palavras de baixo calão e inflamados gritos de ordem, mas até agora não ousou apresentar propostas. Apesar do seu périplo pelo País e de sua incessante atuação nas redes sociais, é uma incógnita o que o sr. Jair Bolsonaro pretende fazer se chegar à Presidência da República.

Logicamente, ao eleitor não bastará saber o que o pré-candidato do PSC deseja fazer, mas o que ele de fato conseguiria realizar. Um presidente da República não é um monarca absoluto, devendo ter disposição e capacidade para negociar com o Congresso. O problema é que, até agora, o eleitor não tem nenhuma ideia das pretensões deste e de outros candidatos a respeito de economia, educação, saúde, saneamento básico, segurança pública. Dar arma ao cidadão não é proposta – é explosão de burrice.

Os desafios do País são enormes e cabe ao eleitor definir como deseja enfrentá-los. Para que ele possa exercer conscientemente esse direito, que é também um dever, é imprescindível conhecer as propostas de cada candidato. Até agora, o único partido que esboçou seus planos futuros foi o MDB, no anúncio da candidatura do ex-ministro Henrique Meirelles. Pelo que se tem visto, há quem pense que não é preciso apresentar propostas. Bastaria promover uma campanha de marketing arguta, capaz de envolver emocionalmente uma parte da população, em tamanho suficiente para uma vitória em segundo turno. Com aparência de perspicácia, a ideia manifesta absoluta irresponsabilidade. A história mostra que artimanhas assim causam grandes prejuízos institucionais, econômicos e sociais.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.