Provocação desnecessária

Se não se está diante de uma deliberada provocação, como disse o líder da Coreia do Norte, trata-se, no mínimo, de uma imprudência de Donald Trump - mais uma - e de Moon Jae-in, presidente sul-coreano

O Estado de S.Paulo

18 Maio 2018 | 03h00

Há algo de muito estranho na ordem mundial quando um chamamento à razão parte de um líder que até poucos dias atrás era considerado uma das maiores ameaças à paz. Kim Jong-un, o líder supremo da Coreia do Norte, chamou de “provocação” a realização de manobras militares da Coreia do Sul e dos Estados Unidos na Península Coreana às vésperas da histórica cúpula com o presidente americano, Donald Trump, marcada para o dia 12 de junho, em Cingapura.

“Este exercício dirigido a nós, que está sendo realizado em toda a Coreia do Sul e nos alvejando, é um desafio flagrante à Declaração de Panmunjom e uma provocação militar intencional que vai contra o desenvolvimento político positivo na Península Coreana”, disse o líder norte-coreano por meio de uma nota divulgada pela agência KCNA, órgão oficial de informação do governo de Pyongyang.

Kim Jong-un ameaçou não comparecer ao encontro com Donald Trump. “Os Estados Unidos também terão de empreender deliberações cuidadosas sobre o destino da planejada cúpula entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos, à luz deste tumulto militar provocativo conduzido em conjunto com as autoridades sul-coreanas”, acrescentou.

De fato, não pode ser vista de outra forma a realização de tais manobras militares. Se não se está diante de uma deliberada provocação, como disse o líder da Coreia do Norte, trata-se, no mínimo, de uma imprudência de Donald Trump - mais uma - e de Moon Jae-in, presidente sul-coreano.

As manobras militares entre a Coreia do Sul e os Estados Unidos ocorrem anualmente. Os exercícios realizados há poucos dias estavam dentro do cronograma de operações. Entretanto, por uma questão de boa-fé e de construção de confiança, dado o ambiente de distensão que vem sendo construído pelos três países, eles poderiam ter sido adiados.

Em março, quando Kim Jong-un convidou Donald Trump para a cúpula entre os dois países, prometeu suspender a realização dos testes nucleares da Coreia do Norte que tanto ameaçavam a Coreia do Sul, os Estados Unidos e seus aliados na Ásia. Não se tem notícia de que o líder da Coreia do Norte tenha descumprido sua promessa.

No final de abril, Kim Jong-un e Moon Jae-in apertaram as mãos na Zona Desmilitarizada na fronteira entre seus países. Foi um encontro histórico: Kim Jong-un foi o primeiro governante do Norte a pisar no Sul desde 1953, ano em que foi assinado um armistício entre os países divididos após o fim da 2.ª Guerra.

Após o encontro em Panmunjom, Kim Jong-un assinou um livro de visitas dizendo que “uma nova história começa agora, no ponto inicial da história e na era da paz”. Moon Jae-in, seu colega sul-coreano, foi eleito em 2017 justamente com uma plataforma política que prega a coexistência e a cooperação entre os dois países.

Na quarta-feira, Xi Jinping, presidente da China, fez um apelo para que Kim Jong-un não desista da participação na reunião de cúpula com Donald Trump em junho. “Apoiamos a melhoria das relações Norte-Sul, a promoção do diálogo entre a Coreia do Norte e os EUA, a desnuclearização da península, o desenvolvimento da economia norte-coreana e a melhoria do sustento do povo”, disse o presidente chinês.

As rusgas históricas entre as Coreias, as reminiscências da guerra fria e a complexa teia de interesses de outras nações naquela região, como a China e a Rússia, tornam um acordo de paz muito difícil. Tanto é assim que a instabilidade política e militar na região já dura 65 anos. Para cada passo rumo à paz, dois outros eram dados na direção contrária. Agora, há chances reais de se mudar tal dinâmica.

Os movimentos atuais de aproximação representam a mais promissora chance de paz duradoura na Península Coreana. Não faz sentido pôr em risco a estabilidade na região com provocações que, no atual contexto, servem apenas para acirrar ânimos e dar voz aos que são contrários às políticas de distensão.

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