Prudência e temperança

Jair Bolsonaro e aqueles que são tidos como seus porta-vozes precisam ter em mente que suas palavras e atos servem para criar ou frustrar expectativas

O Estado de S. Paulo

02 Dezembro 2018 | 05h00

Jair Bolsonaro ainda não assumiu a Presidência da República, mas é natural que tudo o que ele e seus principais assessores digam ou façam no período de transição tenha considerável repercussão. Assim, o presidente eleito e aqueles que se apresentam ou são tidos como seus porta-vozes precisam ter em mente que suas palavras e atos, mesmo que não sejam propriamente decisões de governo, pois em sua maioria não passam de intenções, servem para criar ou frustrar expectativas em toda a sociedade brasileira e, dado o peso econômico do Brasil, mesmo na comunidade internacional.

Sendo assim, o recomendável seria que todos os envolvidos na transição fossem mais prudentes, evitando, como se tem visto até aqui, atropelos, desorganização e voluntarismo – que, em alguns casos, pode irrefletidamente atar o País a compromissos de caráter ideológico ou religioso que atenderiam a supostos desejos dos eleitores de Bolsonaro, mas claramente prejudicam o interesse nacional.

Foi assim, por exemplo, que Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do presidente eleito, foi aos Estados Unidos para, na condição de enviado especial do pai, oferecer, sem esperar contrapartida, o apoio integral do Brasil à agenda do presidente norte-americano, Donald Trump. Deputado federal mais votado nas últimas eleições e fortemente identificado com o presidente eleito, Eduardo Bolsonaro parece ter esquecido que suas palavras e atos têm consequências, seja para si mesmo, seja para seu partido, para o próximo governo e para o País.

Tamanha temeridade foi coroada com a imagem de Eduardo Bolsonaro com um boné da campanha de Trump à reeleição, em 2020. Com isso, sugeriu que o futuro governo Bolsonaro torce pela vitória eleitoral do atual presidente norte-americano, quando o bom senso manda manter-se neutro nas disputas eleitorais alheias, já que o governo terá de lidar com quem quer que seja eleito em 2020 nos Estados Unidos.

O tour de Eduardo Bolsonaro é apenas um dos vários episódios desse período de transição que mostram preocupante prevalência de algo parecido com ideologia sobre a sensatez. Além da aproximação aparentemente incondicional com os Estados Unidos, o futuro governo Bolsonaro, mimetizando Trump, ameaça retirar o Brasil do Acordo de Paris, compromisso firmado por 195 países para conter o aquecimento global. Ao informar que ele mesmo pediu ao governo de Michel Temer para que desistisse de oferecer o Brasil como sede da próxima Conferência do Clima, em 2019, Bolsonaro deixou claro que o motivo era justamente evitar a saia-justa de "anunciar uma possível ruptura (do acordo) dentro do Brasil". Não parece ter havido reflexão suficiente, por parte do futuro governo, para que se tomasse tão drástica decisão.

Do mesmo modo, quase todo o noticiário sobre a transição indica preocupante desorientação sobre o que realmente pretende o presidente eleito. Depois de prometer um Ministério enxuto, com 15 pastas, Bolsonaro deverá tomar posse com mais de 20, em razão de uma aparente confusão de objetivos. Bolsonaro e sua equipe já anunciaram Ministérios que mais tarde foram cancelados, e depois anunciaram a extinção de Ministérios que foram ressuscitados. O presidente eleito já teve que desmentir declarações de seus futuros ministros e comunica decisões com potencial gravidade em entrevistas coletivas confusas e improvisadas.

Sinalizações ambíguas são especialmente alarmantes quando se referem aos maiores desafios da próxima gestão. Quando Eduardo Bolsonaro diz a investidores norte-americanos que "talvez não consigamos" fazer a reforma da Previdência, e seu pai é obrigado a vir a público para dizer que "pode ser que ele tenha se equivocado, o garoto, né?", revela-se inquietante desordem, até porque a frase seguinte põe em dúvida a tramitação do projeto que está no Congresso.

Alguns assessores de Bolsonaro, e talvez o próprio presidente eleito, parecem acreditar que tudo afinal se organizará simplesmente a partir de suas certezas ideológicas. Como escreveu o futuro chanceler, Ernesto Araújo, Bolsonaro foi eleito para promover nada menos que a "regeneração nacional" e, para isso, deve-se destruir tudo o que está aí. O problema é que Bolsonaro parece não saber exatamente o que remover e o que colocar naquele lugar.

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