PT, a evolução do atraso

"A única coisa que evoluiu no Brasil foi o atraso", Levir Culpi, Estado, 17/11/2014

ALMIR PAZZIANOTTO PINTO, O Estado de S. Paulo

13 Janeiro 2015 | 07h20

Diferentemente do que ocorreu com outras organizações partidárias, o PT evoluiu rapidamente, mas rumo ao atraso.

Lançado por Lula em 1979 no ABCD, o PT visava o monopólio de representação da classe operária. Na primeira eleição, disputada em 1982, elegeu 8 deputados federais e 12 estaduais. Em 1986 foram 16 federais e 39 estaduais. Aumentava, também, o número de prefeitos e vereadores: em 1982 havia sido apenas 1, em Diadema, e 179 vereadores em poucos municípios, quantidade que saltou, quatro anos depois, para 112 e 1.881.

No ano de 1994 elegeu 2 governadores, no Espírito Santo e no Distrito Federal, número que subiu a 3 em 1998, quando foi vitorioso no Rio Grande do Sul, em Mato Grosso do Sul e no Acre, embora derrotado no Distrito Federal, não conseguindo reeleger Cristovam Buarque.

Como explicar a ascendente trajetória do partido que em apenas 24 anos conquistou a Presidência da República com Luiz Inácio Lula da Silva, após ser derrotado por Fernando Collor em 1989 e, em 1994 e 1998, por Fernando Henrique Cardoso?

Lula fez-se conhecido em 1975, quando alcançou a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Até então fora suplente do conselho fiscal e primeiro-secretário, encarregado do departamento jurídico.

Em abril de 1976 o sindicato rompeu com a Federação dos Metalúrgicos ao recorrer contra decisão do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo (TRT-SP) que ignorou a pauta anual de reivindicações para lhe impor convenção coletiva de trabalho celebrada pela Fiesp com a federação estadual, dirigida por pelegos. A vitória obtida no Tribunal Superior do Trabalho (TST), em setembro, deferindo cinco cláusulas adicionais, como a de estabilidade da gestante, repercutiu na imprensa e consolidou a liderança de Lula na classe operária, na qual passou a ser visto como dirigente independente do Ministério do Trabalho. O Brasil estava sob o regime militar e gestos de desafio eram algo novo na política trabalhista brasileira.

No ano seguinte Lula deflagrou campanha pela recuperação de perdas decorrentes da manipulação dos índices de custo de vida e em 1978 liderou a primeira greve bem-sucedida pós-1964. Decretada a ilegalidade pelo TRT-SP, os metalúrgicos de São Bernardo não recuaram e obrigaram as indústrias automobilísticas a retomar negociações até assinatura de vitorioso acordo coletivo em 31 de maio.

Seguiram-se as greves de 79 e 80. Em ambas o sindicato sofreu intervenção e na última Lula foi preso e processado pela Lei de Segurança Nacional.

Encerrado o mandato em 1981, Lula não voltou ao sindicato nem à Villares, onde era torneiro mecânico. Optou pela política, com o propósito de disputar o governo estadual. Muito antes, em abril de 1980, após ser deposto da direção do sindicato, entrevistado pela revista IstoÉ (23/4/1980) sobre se cogitava de se candidatar à Presidência da República, seguro de si Lula respondeu: “Isso é brincadeira. Mas, falando sério e sem falsa modéstia, eu seria muito melhor do que o Figueiredo. Seria muito melhor que Maluf, Delfim, esse pessoal todo”.

Foi com tal autossuficiência que o líder, cuja aversão aos livros é conhecida, imprimiu orientação radical ao PT. Exemplo disso foi a abstenção dos petistas no colégio eleitoral que deu a vitória a Tancredo Neves, contra Paulo Maluf, em janeiro de 1985. Os deputados que ousaram divergir foram execrados e banidos.

O PT adotou, como programa, fazer oposição sistemática, agressiva e intolerante a quem se encontrasse no governo. Barba cerrada, munido de megafone, camiseta estampada com a figura de João Ferrador e a frase “hoje não tô bom”, Lula comparecia a portões de fábricas para acusar as injustiças sociais, o arrocho salarial, a corrupção e o peleguismo sindical, propondo a tomada do poder.

Em semanas, jornalistas, universitários, servidores públicos, jovens da classe média, artistas aderiram às fileiras do novo partido, fornecendo-lhe militância gratuita que se transformou em poderosa massa de eleitores. Ao passo que Lula adquiria nome e prestígio, partidos fortes, como o PMDB e o PFL, definhavam, acossados sem cessar pelos militantes petistas.

O sucesso do Plano Real, magistral criação da equipe de Fernando Henrique Cardoso, não foi suficiente para eleger José Serra, a grande esperança dos tucanos, batido por Lula nas eleições de 2002. Em 2006 derrotou Geraldo Alckmin, obtendo o segundo mandato. Detentores de invejáveis carreiras universitárias e políticas, não conquistaram votos para derrotar o metalúrgico iletrado, cuja admiração por ditadores fora dissimulada em hábil campanha publicitária.

A chegada à Presidência da República revelaria, entretanto, a face oculta do PT: nem capitalista, tampouco socialista, apenas demagogo, aético, arrogante, fisiológico.

Tendo por programa a tomada do poder, mas sem saber o que fazer com ele, nos primeiros quatro anos se beneficiou do legado do PSDB na condução da economia, cuja estabilidade fora recuperada. Perdidas, porém, as armas da agitação e da greve, e incapaz de planejar e executar medidas de larga envergadura, optou pela gastança, pelo endividamento e pelo assistencialismo estéril e barato: estava criado o Bolsa Família, o maior cabo eleitoral de todos os tempos.

Em 12 anos de petismo desenfreado, marcados por escândalos, entre os quais se destacam o mensalão e o “Lava Jato”, o Brasil evoluiu, mas no sentido do atraso, como sentenciou Levir Culpi, perspicaz treinador do Atlético Mineiro.

A frase antológica traduz, com clareza, o que pensam do petismo milhões de brasileiros.

*Almir Pazzianotto Pinto é advogado, foi ministro do Trabalho e presidente do TST

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