Pujança enganadora

A frota de veículos da capital paulista - carros, caminhões, ônibus e motos - deve chegar este mês ao número impressionante de 7 milhões de unidades, de acordo com reportagem do Estado. Esse número mostra mais uma vez a pujança de São Paulo, mas basta uma rápida análise da questão - da evolução da frota até chegar a este ponto, do aumento de cada tipo de veículo, da comparação do tamanho da frota com o sistema viário e o seu impacto no trânsito - para se constatar que, ao mesmo tempo, ele traz consigo graves problemas.

, O Estado de S.Paulo

11 Março 2011 | 00h00

Assinale-se antes de mais nada que o ritmo de aumento da frota é seis vezes superior ao do aumento da população, e tem se acelerado nos últimos anos. Em oito anos, de janeiro de 2000 a janeiro de 2008, a frota pulou de 5 milhões para 6 milhões, mas levou apenas três anos para chegar a 7 milhões.

Em 2010, entraram em circulação 27 mil veículos por mês, o que representa 4% a mais em relação a 2009. Se a comparação for feita com o ano em que começou a vigorar o rodízio municipal - 1997 -, o aumento foi de 45%. Isto explica a sensível diminuição dos efeitos benéficos do rodízio.

Por tipo de veículo, o crescimento maior foi de motos, carros e utilitários. O das motos foi o maior. Seu número aumentou 136%, entre 2000 e 2008, e o de carros, 27%. O de ônibus permaneceu estável, ou seja, um dos principais meios de transporte coletivo não acompanha, nem de longe, a expansão do transporte individual.

O descompasso entre o crescimento da frota e o da malha viária também é grande. No final da década de 1970, havia 14 mil quilômetros de ruas e avenidas para uma frota de 965 mil veículos. Hoje, para uma frota que em poucos dias será de 7 milhões, há apenas 17 mil quilômetros de vias. Enquanto a primeira cresceu 725% nesse período, o aumento da segunda foi de apenas 20%.

Um motoboy ouvido pela reportagem resumiu bem o resultado de tudo isso: "A cidade está cada dia mais lotada. Eu levava 40 minutos de Poá até o centro um ano atrás. Hoje levo mais de uma hora. E isso de moto". É fácil de imaginar as agruras de quem se desloca de ônibus ou mesmo de carro, que não tem a agilidade das motos.

A conclusão de um conhecido especialista na questão, Ailton Brasiliense, presidente da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), completa o quadro, com a introdução de outros elementos: "O aumento da frota registra a riqueza da cidade, mas também mostra uma situação burra, um grande erro. Com mais carro e mais trânsito, há um sobrecusto na tarifa do ônibus, há mais poluição, a velocidade média cai. Vira um círculo vicioso".

Sobre o crescimento da frota não há muito o que fazer. Ele será maior ou menor, dependendo da situação econômica do País e da renda da população. Sobre o que o poder público pode e deve fazer para melhorar o transporte coletivo e, assim, levar a maior parte dos proprietários de carros e motos a não usá-los para seus deslocamentos diários, tudo é bem conhecido.

A verdadeira solução do problema - não há quem não saiba - está na expansão do Metrô, de responsabilidade do Estado, mas ela é cara e demorada. Como a construção do Metrô tem um atraso histórico, mesmo um considerável aumento do investimento - que não tem sido pequeno nos últimos anos - não conseguiria reduzir muito aquela demora.

Restam as medidas de curto prazo, capazes de pelo menos aliviar a situação, e que dependem da Prefeitura. A principal é uma profunda reforma do serviço de ônibus, lento e superlotado, que exige basicamente reorganização das linhas - prometida por sucessivos governos -, conclusão da renovação da frota e construção de novos corredores exclusivos.

Por que essa tão esperada reforma, de custo relativamente baixo, nunca foi feita é algo que só pode ser explicado pela pressão das empresas que dominam o setor e que nenhum prefeito até agora ousou enfrentar.

Mais barata ainda - e capaz de aumentar a fluidez do trânsito e melhorar a vida do paulistano - é a modernização do sistema de semáforos. Dinheiro não falta para isso. Por que não é feita?

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