Pura encenação política

O governo, que nas últimas semanas vinha em desabalada carreira a caminho do brejo, logrou fazer um pit stop no Senado. Renan Calheiros ofereceu a Dilma Rousseff um tempo para respirar, em mais uma guinada esperta em sua interessante trajetória política, onde há de tudo – menos altruísmo. Depreende-se daí qual seja o verdadeiro significado da Agenda Brasil, o mais recente episódio da trepidante crise em que o País está mergulhado. Crise, aliás, que nada tem a ver com Dilma, mas é todinha culpa dos Estados Unidos, como Lula constatou após percuciente análise das maquinações do imperialismo ianque feita diante da plateia da 5.ª Marcha das Margaridas, promovida pela Contag em Brasília.

O Estado de S. Paulo

13 Agosto 2015 | 03h00

Consubstanciada num pacote de 27 propostas de reformas – 19 das quais já estavam em tramitação – apresentadas pelo presidente do Senado como contribuição ao ajuste fiscal e ao aperfeiçoamento da economia e da administração pública, a Agenda Brasil é a ação mais visível do conjunto de medidas articuladas pelo governo e pelo PT para aliviar a pressão sobre o Planalto e afastar a possibilidade de impeachment de Dilma.

Lideranças do governo e do PT, inclusive o ex-presidente Lula, têm mantido contato com lideranças civis em busca de apoio para ações imediatas que favoreçam, além da defesa do mandato de Dilma, o controle da crise política e econômica. Da crise moral – ou seja, da roubalheira pilhada pela Operação Lava Jato – eles preferem não falar. São claros resultados dessas iniciativas as manifestações dos presidentes das federações da indústria de São Paulo e do Rio de Janeiro, bem como as entrevistas concedidas à Folha de S.Paulo e ao Globo pelo presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco. A tônica dessas manifestações foi, como era de esperar, o apelo à união dos brasileiros para a pacificação política e o combate à crise econômica. A ironia dessa situação é o fato de os petistas, em desespero de causa, se verem na contingência de terem de se valer do socorro “deles”, os representantes da “elite”.

A negociação que resultou na Agenda Brasil, na qual o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, teve papel relevante, garantiu benefícios imediatos tanto para a presidente da República e, consequentemente, para o governo, quanto para Renan Calheiros, que vinha disputando com seu correligionário presidente da Câmara, Eduardo Cunha, um torneio de maldades contra o Planalto.

Para alegria geral dos novos parceiros, o acordo com Dilma provoca desde logo o potencial enfraquecimento político de Eduardo Cunha, a partir da constatação de que os senadores passam a figurar como beneficiários prioritários das benesses governamentais, em prejuízo dos deputados. Afinal, é disso que se trata quando se coloca o que é verdadeiramente mais importante para os parlamentares em geral. Ponto, portanto, para Calheiros, que a partir de agora volta a desempenhar um protagonismo político do qual estava cada vez mais afastado. Além disso, o senador alagoano contabiliza mais dois bônus: a boa vontade do poder central para com seu filho, que governa as Alagoas, e pelo menos a torcida de Dilma para que a Operação Lava Jato o mantenha fora da mira.

Para Dilma, por sua vez, a encenação da Agenda Brasil oferece desde logo a garantia do apoio do Senado à aprovação das medidas restantes do ajuste fiscal e de um contraponto, na Câmara Alta, à “pauta-bomba” que Eduardo Cunha com toda certeza intensificará agora na Casa que preside. Se os tais 27 pontos deixarem de ser meras ementas de projetos, e se isso acontecer em tempo oportuno, a jogada poderá contribuir para a recuperação da confiança dos agentes econômicos. De qualquer maneira, Dilma deverá contar agora com a recondução de Rodrigo Janot à chefia do Ministério Público Federal. Esse ponto do entendimento com Calheiros teria sido facilitado pela verificação de que a Operação Lava Jato não teria apurado contra ele nada que deva ser processado imediatamente. O mesmo já não ocorre em relação a Eduardo Cunha, que ao que tudo indica integrará a primeira lista de políticos denunciados pelo Ministério Público ao STF.

Essa Agenda Brasil que o governo tão festivamente comemora representa, portanto, um alívio para Dilma. O problema é que acordos com Renan não resolvem as graves questões que a presidente tem pendentes no Tribunal de Contas da União e no Superior Tribunal Eleitoral e que podem lhe custar o mandato.

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