Quadris das palavras

Os cidadãos não mais aceitam a conciliação entre palavreado fluente e pensamento gago

CARLOS AYRES BRITTO*, O Estado de S.Paulo

29 Março 2017 | 03h01

As palavras se desejam encarnadas por quem as utiliza. Gostam de quem as pronuncia com sinceridade. Não sendo por acaso que a locução “homem de palavra” tanto signifique pessoa fiel à própria fala como pessoa socialmente acreditada. E se tal pronúncia se fizer com reverência e gratidão, melhor ainda, pois as palavras sabem que o sangue da vida também flui pelas veias de cada uma delas. Organismos ou corpos articulados que são. Entes, seres, e não simplesmente coisas. Logo, não apenas um amontoado de letras, isoladamente ou então já acopladas a muitas outras para compor todo um fraseado linguístico. Mais: as palavras sabem que fazem parte da nossa personalidade, na medida em que sem elas não passaríamos de ruminantes. Ou, antropologicamente falando, prosseguiríamos primatas a saltar de galho em galho das árvores ou a correr de quatro por descampados e matagais. Animais comuns, por conseguinte. Não indivíduos e muito menos cidadãos.

Noutro modo de falar, as palavras se integram num sistema de linguagem tão objetivamente portador de significados e sentidos que operam como inigualável fator de comunicação. Um instrumental de comunicação intersubjetiva bem mais qualificado que o de qualquer outra espécie animal. Uma das mais fortes razões de ser – senão a de maior robustez – da própria evolução da espécie humana. A linguagem assim composta de palavras e expressões linguísticas a responder mais eficazmente pela transcendência do ser humano. Seja a transcendência que tenha por mais alto ponto a consciência, seja aquela que tenha por ápice o espírito (quando se diz que o indivíduo salta das coordenadas desta vida terrena para outra já correspondente à divindade).

Nesse contexto é que me animo a perguntar: não se deve a essa instigante supremacia das palavras a conhecida anotação evangélica de que “no princípio era o verbo”? “E o verbo estava com Deus, e o verbo era Deus”? Registro que se lê no apóstolo João, 1:1-3? O verbo, ali, como sinônimo de palavra? Donde se dizer de pessoas especialmente identificadas com ele (o papa Francisco, por exemplo) que são pessoas boas de verbo? Ungidas pelas palavras? Tocadas espiritualmente por elas? Ou que ali, no Evangelho de João, o que se busca é revelar a superioridade do verbo sobre o substantivo? Isso no sentido de que o verbo “viver” conta mais que o substantivo de nome vida? Que o verbo amar interessa mais que o substantivo amor? Que mais importante que o substantivo conhecimento é o verbo conhecer, e assim por diante? O verbo como a disposição de sair da inércia para praticar toda ação que se revele como inatamente virtuosa? Ou aquela final identificação do verbo com o próprio Deus já passa a traduzir que um e outro são dignos de todo o respeito ou toda a reverencial atenção? Que trair o verbo ou a palavra empenhada é, de certa forma, trair o próprio Deus? Jurar o santo nome Dele(s) em vão? A fidelidade a ambos como fator de centralidade individual e elevação espiritual? Ou ainda como fator de coesão social, quando a invocação do verbo se fizer por um agente estatal, notadamente os chamados membros do poder?

Bem, o que tenciono evidenciar é o papel de essencialidade das palavras na História da humanidade e na própria compostura da personalidade humana. Uma coisa a puxar outra. Inclusive pelo aspecto político da parte final do último segmento de ideias. Hipótese em que o apego à palavra empenhada opera como condição de autenticidade representativa e até mesmo como traço de caráter. O homem público a não representar jamais que representa o povo. A não incidir, por nenhum modo, em teatralidade ou encenação argumentativa. A nunca separar poder e pudor. A entender de uma vez por todas que, numa democracia que prima pelo seu tônus republicano, os cidadãos não aceitam mais a conciliação matreira entre palavreado fluente e pensamento gago. Há um princípio constitucional da moralidade e outro da publicidade-transparência (cabeça do artigo 37) que atuam como proteção da confiança da sociedade civil. Como dever de lealdade dos agentes estatais em geral e dos membros do poder em especial. Proteção da confiança e lealdade que são direta emanação do Estado constitucional de Direito.

Um novo aspecto do tema central a que me propus: o link funcional entre o sistema de palavras e determinadas profissões. Caso dos professores, jornalistas e profissionais do Direito. Profissionais que, por vocação e também por contingência (não pode ser de outra forma), fazem das palavras um ponto de interseção de meio de vida e razão de viver. Não incluo os políticos, porque política não é profissão. É, por definição, incessante abertura para o serviço da polis. A exigir dos seus militantes o mais entranhado espírito público. Gosto ou jeito para cuidar de tudo o que é de todos por um modo devocional. Um tipo de razão de viver muito dificilmente conciliável, em sua pureza, com meio de vida ou ganha-pão. Perceptível que a dependência econômica do cargo faz o mandatário popular sofrer os mais intensos abalos sísmicos em sua estrutura psicológica a cada risco de não reeleição. Donde a possibilidade maior de se tornar refém desta conhecida frase do filósofo grego Epicuro (342-271 a.C): “Quando a tentação chegar, ceda logo antes que ela vá embora”.

Derradeiro aspecto que tenho como imprescindível comentar: a relação da mais caseira intimidade entre as palavras e os literatos. Relação de unha e carne, veia e sangue, pele e pelo, olho e pálpebra. Com ênfase nos poetas, que tanto fazem da experiência uma linguagem quanto da linguagem em si uma experiência. Donde Hegel (1770-1831) ajuizar que “a poesia é a arte da palavra”. Quadris das palavras e mãos de poeta a se dar às mil maravilhas, então, desde que o primeiro deles fez da mais rude costela masculina um mais refinado ser de nome Eva. Por isso até hoje todo homem sabe que lhe falta uma costela, e por essa costela dá a vida de todas as outras. Não?

* CARLOS AYRES BRITTO É EX-PRESIDENTE DO STF

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