Qual é o diagnóstico?

O primeiro semestre terminou e não há sinal de estabilização da economia. Tudo indica que a recessão vai continuar neste trimestre. Este ano será o quinto de uma desaceleração que parece infindável. Está claro que algo sério está acontecendo na economia, com reflexos importantes no resto, inclusive na política, que mergulha em sua própria crise. Para alguns, o que houve foi a descoberta de que “o rei está nu”; para outros, que “a maré baixou e ficou claro quem nadava sem roupa”. Para além das metáforas de nudez, o que há com a economia? Sem um bom diagnóstico fica difícil avançar.

Ilan Goldfajn, O Estado de S. Paulo

07 Julho 2015 | 03h00

A visão de que a recessão atual é consequência das políticas de ajustes recém-implementadas pela equipe econômica não passa pelo teste do bom senso. A desaceleração do PIB faz anos e a destruição de empregos formais ocorre há mais de um ano e meio. Nada no presente pode ter derrubado o passado, até porque os ajustes não eram esperados, ao menos por este governo.

Alguns sinais são importantes para chegar ao diagnóstico correto. O primeiro é que não houve falta de gasto e de demanda na economia brasileira. Apesar de todos os estímulos do governo (até o ano passado), a economia teimou em recuar. E não foram poucos os estímulos: crédito público amplo, gastos crescentes do governo, preços mantidos baixos artificialmente, todo tipo de déficit. As políticas foram tão expansionistas que chegamos ao limite da indisciplina e da perda de credibilidade, difíceis agora de retomar.

Mas nada disso adiantou. A economia saiu de uma taxa de crescimento médio de 4,5% nos anos dourados para uma recessão de pelo menos -2% este ano. Pensando agora, esse resultado não deveria surpreender: afinal, falta de gastos nunca foi o problema do Brasil, que tem uma das menores taxas de poupança do mundo. Nenhuma sugestão de estimular mais a demanda nesse contexto, por mais tentadora que possa parecer, será bem-sucedida. Repetir o erro não mudará o resultado.

O segundo sinal é que, de fato, a maré global baixou. Olhando a região em volta, a desaceleração é generalizada. Países tão distintos como Chile e Venezuela estão tendo quedas de crescimento significativas. A desaceleração da China e a queda importante dos preços das commodities provocaram um estrago geral. O fator comum não pode ser ignorado no diagnóstico atual.

Mas nem todas as quedas são iguais. Venezuela e Argentina são os países que sofrem mais. O Brasil vem logo depois. É sempre tentador identificar num fator externo as razões das nossas mazelas. Infelizmente, será um diagnóstico equivocado. A vulnerabilidade ao fim do ciclo externo depende de fatores domésticos, assim como da reação de políticas econômicas.

O diagnóstico de que a crise internacional seria a razão de todas as mazelas levou a uma reação equivocada de políticas no Brasil. Hoje está claro que a reação equivocada aos sinais de desaceleração magnificou o impacto da crise. O erro de diagnóstico custou caro. É essencial não errar de novo no diagnóstico.

Nesse sentido, outro diagnóstico identifica nos erros de política econômica dos últimos quatro anos a raiz de todos os problemas. É uma verdade parcial, que leva a um diagnóstico também parcialmente correto.

Já me explico. A economia passa por ajustes muito relevantes. O ajuste fiscal é o mais importante, mas temos em curso vários outros igualmente significativos, como o reajuste de preços administrados que estavam reprimidos, a correção do déficit do balanço de pagamentos (deixando o câmbio depreciar, intervindo menos), o ajuste parafiscal (créditos públicos, programas diversos) e a volta da inflação ao centro da meta. Como todos esses ajustes vão na direção certa, é necessário implementá-los (o que já é uma tarefa hercúlea), para a economia se recuperar.

Porém nem tudo o que é necessário se torna suficiente. Implementar os ajustes conserta os desajustes passados, mas não leva automaticamente a um crescimento maior. Ajustes não são reformas, entendidas como medidas que elevam a produtividade no Brasil. A elevação da produtividade, sim, seria a condição suficiente para a volta do crescimento.

O diagnóstico que prefiro é o de que o alto custo de produzir no Brasil está bloqueando a capacidade de a economia crescer. Refiro-me aos entraves de oferta da economia brasileira. O custo Brasil é alto em várias dimensões: alta e incerta carga tributária, que advém de gastos crescentes; falta de infraestrutura adequada; incertezas regulatórias; problemas de gestão em geral; economia fechada e ineficiente; nível de educação; crescimento dos salários acima da produtividade, elevando o custo unitário do trabalho. Esses problemas ficaram evidentes depois do fim do ciclo favorável externo e foram exacerbados pelas políticas de estímulo dos últimos anos, no bojo do que se denominou na época “nova matriz macroeconômica”.

Hoje em dia fica evidente que não dá para continuar crescendo com esse custo elevado, num mundo tão diferente. Esse diagnóstico de problema de oferta não é novo. Mas a saída, para aqueles que o identificavam, era “fugir para a frente”. Embarcar em mudanças e reformas que aumentassem a produtividade.

As reformas não vieram e o problema ficou. A economia agora busca sua saída, forçando o ajuste de custos. Problemas de oferta elevam preços e reduzem vendas. A recessão incentiva a busca da eficiência, a redução de custos, para sobreviver. A inflação mais alta este ano é a forma aceitável de diminuir rendas reais em economias que não aceitam perdas nominais.

A economia brasileira precisa de uma boa dieta (redução de custos). Sem isso não conseguirá crescer de forma sustentável. Tudo indica que, na ausência de reformas estruturais, esse processo de redução de custos será longo e penoso. Ou mais curto, porém mais agudo.

*Ilan Goldfajn é economista-chefe e sócio do Itaú Unibanco

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