Quanto mais diferentes os preços, melhor

Várias vezes por ano, do tipo época de início de aulas, carnaval, Dias das Mães, Dia dos Pais e outros mais, a imprensa publica diversas matérias chamando a atenção (geralmente em tom de "vejam que absurdo") para as diferenças de preços entre produtos muito procurados nessas ocasiões. A tendência das pessoas é se indignarem com as diferenças, ao invés de se alegrarem.

Alexandre Barros *,

30 Janeiro 2013 | 02h10

Poucos veem as vantagens das grandes diferenças de preços e de como tirar proveito disso. O clamor costuma ser contra este milagre do mercado, a livre concorrência, que mais beneficia os pobres do que os prejudica. Quando a imprensa publica essa "denúncia", atira no que viu e acerta no que não viu.

Graças a essas diferenças, mais pessoas com rendas mais diferenciadas podem ter acesso a bens aos quais não teriam se eles fossem tabelados. A engambelação dos consumidores ocorre porque as pessoas creem que, quando algum produto é tabelado (seja por um órgão governamental ou por associações profissionais - as várias ordens e os conselhos profissionais, etc.), esse tabelamento é a favor do consumidor, quando, na realidade, o que se verifica é o contrário. Os tabelamentos são sempre a favor dos produtores. É a eles que interessa tabelar pelo preço que mais lhes convém e vender a imagem de que isso foi feito em prol dos consumidores.

Recentemente tomei uma perua no Aeroporto Internacional de Washington e quando chegamos a uma esquina na qual havia quatro postos de gasolina com preços diferentes, um senhor da Califórnia esbravejou: "Que absurdo, afinal, vem tudo da mesma refinaria! Achei a África do Sul uma maravilha, lá todos os postos têm todos o mesmo preço". Perguntei-lhe se ele já havia vivido em algum país com os preços tabelados. Respondeu-me que não. Como já estava chegando ao meu destino, resolvi encerrar a conversa e apenas observei: "Por favor, procure informar-se melhor sobre o assunto". Despedimo-nos cordialmente, mas ele não entendeu do que eu estava falando.

Recordei-me de um episódio de quando vivíamos com muito mais monopólios e oligopólios com preços tabelados (1994 - telefones, combustível, energia elétrica, etc.). Uma grande casa de investimentos inglesa (já falida, graças a um trambique de um operador de mercado) promoveu uma reunião de investidores institucionais em Miami. Pediu-me que convidasse o então candidato Lula da Silva para falar para eles. Apesar de ter perdido aquela eleição presidencial, Lula, sensatamente, resolveu que não iria desperdiçar tempo com 300 ou 400 gerentes de fortunas que não lhe renderiam nenhum voto. Mas designou um deputado do PT para representá-lo.

Como consultor, coube-me ciceronear o deputado petista por Miami. Numa esquina com os quatro tradicionais postos de gasolina - para quem não sabe, eles são concentrados em áreas distantes de residências e de outros estabelecimentos comerciais, pois, em caso de incêndio, assim se evitam tragédias parecidas com a da boate de Santa Maria (RS) na madrugada de domingo -, levantei a questão da diferença dos preços. Reação do parlamentar: "Mas que absurdo, isso não pode!".

Retruquei-lhe com uma pergunta: "O senhor acha justo que um rico dono de um Cadillac e um estudante que tem um fusquinha 67 paguem o mesmo preço pela gasolina? Não acha mais justo que o estudante possa escolher circular com seu fusquinha usando uma gasolina mais barata, do posto que fica do outro lado da rua?". Sua expressão foi de total surpresa e me respondeu francamente: "Mas eu nunca havia pensado nisso".

Este é o ponto: de lá para cá, a sociedade brasileira mudou. As políticas de Fernando Henrique Cardoso e de Lula deram um basta à inflação e vários desses oligopólios foram quebrados. O efeito mais dramaticamente visível, apesar de continuar a ser um oligopólio parcial, foi na telefonia.

Os políticos favoráveis ao sistema estatal enchiam a boca para dizer que o Brasil tinha a tarifa telefônica mais barata do mundo. Verdade parcial. O que eles não computavam nesse cálculo era o custo da compra da linha. Em certas áreas de São Paulo uma linha chegou a custar US$ 20 mil, no tempo em que o dólar era moeda forte.

Hoje não tem telefone quem não quer. As operadoras já nem fazem propaganda das linhas físicas. Tentam vender planos de celulares, mais lucrativos, em razão da forte concorrência. O pré-pago abriu o mercado, de forma espetacular, para profissionais que prestam serviços necessários, mas quase sempre de maneira informal. Furou um cano na sua casa, você liga para o Zé das Couves, ele atende e pergunta se o problema é sério. Você diz que a família está toda tentando vedar o cano e em uma hora o Zé chega e estanca o jorro d'água. Você paga a ele e ficam todos satisfeitos: ele, com o dinheiro que ganhou e você e sua família, com o problema resolvido.

Antes da privatização, era muito raro ter telefone. Quando você ligava para o número que o Zé lhe tinha dado, era, por exemplo, da sogra, que respondia simpaticamente: "Moço, hoje é terça e o Zé só vem aqui aos sábados". Conclusão: ficavam você com a casa inundada e o Zé, sem ganhar dinheiro.

Talvez seja a hora de o governo federal se dar conta de que tabelar preços, não importa do quê, só prejudica os pobres, em nome de quem ele tanto fala. E tabelá-los para esconder inflação é pior ainda, porque os custos se vão acumulado e quando chega a hora do aumento autorizado pelo governo a paulada é sempre mais forte - e quem sofre mais são... os pobres!

Protecionismo é a mesma coisa. O governo "protege" alguns setores, dando-lhes vantagens. Com isso, o que o governo está fazendo é apenas "proteger" os consumidores contra preços mais baixos.

Enquanto a sociedade brasileira não entender que a livre concorrência beneficia a todos, teremos mal-entendidos, comprando gato por lebre.

* Alexandre Barros é cientista político (PH.D. Universidade de Chicago), consultor de Risco Político e Relações Governamentais. E-mail: alex@eaw.com.br.
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