Quatro anos de apreensão

Trump age sem qualquer freio de natureza política, econômica, social ou moral

O Estado de S.Paulo

04 Fevereiro 2017 | 03h00

Há menos de um mês na Presidência dos Estados Unidos, Donald Trump já deu evidentes sinais de que haverá razões para apreensão e sobressaltos enquanto tiver o poder para assinar ordens executivas no Salão Oval da Casa Branca e usar seu poder de comunicação para propagar ameaças, inclusive contra nações aliadas. Se ainda havia esperança de que os arroubos grosseiros e inconsequentes do candidato boquirroto cederiam lugar à prudência e à responsabilidade do presidente, ela foi dissipada já nas duas primeiras semanas de governo. Mesmo diante de realidades que o contrariam, Trump não dá demonstrações de recuo no tom beligerante que pautou sua campanha.

Seu desatino é proporcional à amplitude da zona de influência da nação mais poderosa do mundo. Cercado por uma equipe que não parece capaz de ponderar as consequências de suas ações sobre o equilíbrio global, Trump sente-se à vontade para criar pontos de tensão em todos os continentes, inspirado por uma ideia anacrônica de supremacia geopolítica e econômica dos Estados Unidos. É esperado que um presidente paute suas ações de governo tendo os interesses de seu país em primeira conta. Entretanto, o lema “America First” (“Estados Unidos em primeiro lugar”) vem sendo substituído na prática por uma política de abandono da integração internacional requerida ante os complexos desafios globais do século 21, algo que poderia ser classificado como “America Only” (“só os Estados Unidos”).

O México foi apenas o primeiro país a ser hostilizado por Trump. Sem qualquer freio de natureza política, econômica, social ou moral, o presidente americano indicou que a construção de um muro separando os dois países não será apenas uma bravata eleitoreira. Em surpreendente telefonema ao presidente mexicano Enrique Peña Nieto, Trump – que já havia classificado o país vizinho como uma nação inimiga por “enviar traficantes e estupradores para os Estados Unidos” – subiu o tom, ameaçando Peña Nieto com uma intervenção militar. “Há muitos ‘bad hombres’ aí no México”, disse Trump. “Você não está fazendo o suficiente para detê-los. Creio que os seus militares estão com medo. Os nossos militares não, então posso enviá-los para cuidar disso.” O que ele quis dizer com “cuidar” pode ser entendido de qualquer maneira.

A Austrália foi outra nação aliada constrangida pela incontinência verbal de Trump. Segundo o jornal The Washington Post, em duro telefonema ao primeiro-ministro Malcolm Turnbull, o presidente norte-americano classificou como “burro” o acordo firmado entre Washington e Camberra para reassentamento de refugiados. O acordo, assinado durante o governo de Barack Obama, prevê o envio para os EUA de refugiados em campos instalados em algumas ilhas do Pacífico. Em reciprocidade, a Austrália comprometeu-se em receber refugiados de Honduras, Guatemala e El Salvador. Estados Unidos e Austrália integram o Five Eyes (“Cinco Olhos”), uma rede de inteligência da qual fazem parte ainda o Reino Unido, o Canadá e a Nova Zelândia. Um atrito entre os dois países pode ter sérias implicações no combate ao terrorismo global.

Mais temíveis ainda são as hostilidades que envolvem as disputas territoriais no Mar do Sul da China. Stephen Bannon, assessor especial de Trump, membro do Conselho de Segurança Nacional e considerado “presidente de facto” por parte da imprensa norte-americana, declarou ser “inevitável” uma guerra entre seu país e a China tendo-se em vista a recusa do país asiático em reconhecer a decisão da Corte Internacional de Haia que julgou improcedente seu domínio sobre a região, rica em petróleo e gás natural. No local, há forte presença militar norte-americana desde a década de 1970.

Donald Trump também sinalizou que poderá impor sanções ao Irã após o país ter realizado mais um teste de lançamento de mísseis balísticos. As relações entre os dois países, tensas desde a Revolução Islâmica de 1979, vêm recrudescendo desde a posse do republicano, para quem uma intervenção militar no Irã é “uma das opções sobre a mesa”. 

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