Que tal ouvir os jovens?

Para eles estamos a construir o amanhã. Por todos, da mesma forma, acalentado

*Manoel Vilela de Magalhães, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2016 | 03h09

A voz corrente de maior intensidade, diante da desastrosa e inconcebível situação vivida pelo País, ou é de desesperança ou de algo parecido, talvez pior, a apatia. O sentimento mais ou menos generalizado passa até pela vontade de desistir de votar, a exemplo do que ocorreu no recente pleito para prefeitos e vereadores. No momento, é alta a rejeição à figura do presidente da República e à de governadores de Estado. Parcelas expressivas, como mostra o noticiário do dia a dia, manifestam descrença no amanhã da economia e da vida em geral da Nação, sem dúvida desfigurada por má gestão de governantes. O grande naufrágio não teria sentido diante da potencialidade do País, sendo razoável a conclusão de que tudo de ruim se dá pelas equívocas maneiras de administrar, sem quase nenhum zelo pelo dinheiro público. Lei de Responsabilidade Fiscal, nem pensar!

São muitos os erros na escolha de ministros e de integrantes da máquina estatal, cargos entregues por vezes a pessoas de reduzida qualificação, observada apenas a cor partidária. Muitos, felizmente, já foram banidos por evidente ineficácia.

Sem querer ser apático, muito menos desistir de frequentar as urnas, não há, porém, como ocultar: desde há muito, as equipes dos nossos dirigentes, em todas as esferas, não chegam com diplomas ou com o que se poderia qualificar de notório saber. Ou seja, são nomeados sem que, de sua bagagem, conste a necessária competência para exercer cargos públicos. Vale muito mais a carteirinha de filiação partidária. De quebra, põe-se de lado mais cuidadoso exame da atuação de apaniguados, importando muito pouco também a chamada vida pregressa, a ficha limpa, a certidão judiciária de “nada consta” e/ou documentos assemelhados.

A exemplo da natureza, que devolve à Terra tragédias como secas, calor e outros fenômenos climáticos, como que a dar zero aos desmandos com que a agridem, a má gestão torna-se visível diante de quedas em índices aferidores, a nos envergonhar, como esses do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Até dá certa vontade de exercitar o voto nulo.

Para nosso regozijo, a economia começa a deixar o sono profundo (com previsão de retomada de nível positivo no início do próximo ano, mesmo com diminutos 3,5%). No campo político há uma luz no fim do túnel. Na mesma noite da apuração do pleito municipal, o programa Fantástico deu a conhecer os resultados de pesquisa do Núcleo de Tendências da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Aos jovens foi indagado que País desejam construir. E a resposta será talvez a comprovação de que, entre eles, mudanças começam a ocorrer. Afinal, do contingente de desempregados no País, boa parcela é de jovens. Em lugar, porém de apatia, há forte desejo de contribuir para o reerguimento de nossa combalida nação, ao menos nessa parcela da nossa população. Nada menos que 70,24% declararam ter interesse pela política. E apenas 2,35% se declararam desinteressados.

Como mostra o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os jovens no Brasil, entre 18 e 33 anos de idade, representam 27% da população e, pelo visto, sugerem mudanças, mais do que nunca necessárias, notadamente no meio político-partidário.

Outras manifestações de jovens estão a indicar o desejo de uma saudável participação na política, em prol de mudanças no quadro atual, pleno de distorções, falhas e interesses que não são os do Brasil. Os jovens querem ser ouvidos, pedem escolas mais qualificadas, com professores competentes, bem formados. Que tal o diálogo?

Na sala de espera de clínica do Alto de Pinheiros, em São Paulo, tive a sorte de ler singela mensagem da jovem Fernanda Susanna, de 20 anos, provavelmente entristecida diante do baque diário de sucessivos equívocos de governantes e legisladores, com a débâcle da Nação e seus reflexos na economia, na saúde e na educação.

A mensagem da jovem está em seu livrinho Leãozinho, nome dado a um franzino animal, diferente dos outros da espécie, rejeitado e feio, pelo que se tornara errante. E apático, diante de desmandos de três tiranos que infelicitaram o território em que nascera. Na história de Fernanda, Leãozinho veio a se encontrar com uma coruja, soberana da noite, vivaz e detentora de saber e misticismo, por tudo isso eleita símbolo da pedagogia. Dela recebeu ensinamentos, readquiriu ânimo e derrotou os tiranos, sem usar a força, mas sim perspicácia e estratégia. E depois se tornou governante daquele pedaço de chão do seu melhor aconchego.

Reproduzo a fala da coruja, parte do enredo do livro, pela similitude com o Brasil atual, combalido pela gestão de certos dirigentes, de quase nenhuma capacidade: “Se um dia chegar a ser rei e os destinos de muitos dependerem de você, escolha os melhores entre os melhores para ajudá-lo a governar. Estes devem ser bons, generosos e com vontade de ajudar os outros. Coloque cada um numa posição que esteja de acordo com sua capacidade para aquilo a que foram designados. Nunca coloque em posições de destaque incapazes ou de má índole. Se o fizer, você não só estará prejudicando o seu governo, mas também ofenderá os bons, o que confiam em você”

É hora de entender essa mais do que legítima mensagem. As ações governamentais precisam mostrar efetividade. E, sem dúvida, a qualidade do ensino é fundamental para as gerações em formação.

É hora de buscar um novo jeito de governar, com escolha de dirigentes competentes. Não precisamos de nenhuma coruja, muito mais de responsabilidade. Que tal ouvir os jovens? Canal, sem dúvida, democrático, acertado. Para eles estamos a construir o amanhã. Por todos, da mesma forma, acalentado.

*Jornalista, foi professor da Universidade de Brasília (UNB) e diretor-geral do Senado Federal

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.