Quem está certo?

A principal foto de propaganda do governo de Juscelino Kubitschek (JK) era uma em que ele, o presidente, aparecia, impávido, sobre diversas toras cerradas. O local, se não me engano, era o canteiro de obras da Rodovia Belém-Brasília. Simbolizava o triunfo do homem sobre a natureza. Um novo país que nascia, desbravando as matas, lutando contra a inércia e o fatalismo, dois estigmas desde sempre presentes em nossa cultura ibérica. Não existem determinismos, JK parecia dizer. Não desanimem! Tudo é possível aos homens que creem...

João Mellão Neto, O Estado de S.Paulo

11 Março 2011 | 00h00

Bem, essa foto nunca mais foi vista. Não pegaria bem, atualmente, em tempos de ecologia e preservação do meio ambiente. O tempora, o mores!, já resmungava Cícero, alguns anos antes do nascimento de Cristo. Oh tempos, oh costumes! Traduzindo para o português. Não adianta reclamar. A cada época, a cada lugar, correspondem valores e costumes próprios. A verdade absoluta não é alcançável. Ao menos não pela razão. Então, o que é mais correto? Lutar para construir um novo mundo ou tratar de cuidar deste que já temos?

É curioso observar que, no Brasil, hoje em dia, as duas ideias se confundem. Os preservacionistas do meio ambiente mais exaltados são os mesmos que, exacerbados, pretendem construir um novo mundo para a humanidade. São defensores radicais do conservadorismo e do progressismo, ao mesmo tempo. Para eles a natureza física não pode ser mexida. Já a natureza humana, pode.

José de Alencar - mais conhecido entre nós como escritor - era também um político influente nos tempos do Segundo Império. De acordo com ele - que era conservador - ambas as forças têm de existir na política: a conservadora, que busca preservar os costumes e as instituições, e a progressista, que entende ser possível aperfeiçoá-los. Sem a segunda, os governos seriam "autômatos". Sem a primeira, a Nação caminharia para o precipício.

Ele estava certo. Há que se aceitar - e defender - que existam as duas. São esses os "freios e contrapesos" que nos garantem a prevalência da democracia. Sempre que se tentou eliminar uma delas, o resultado foi o despotismo. Às vezes ambas se manifestam na mesma pessoa, como é o caso acima mencionado... O problema é que ambas - a força conservadora e a força "progressista" - têm fortes argumentos para se justificar.

Comecemos pela segunda:

Quem acredita no "progresso" e no aperfeiçoamento da natureza humana afirma que os avanços de alguns séculos para cá são evidentes. Foi a partir do "Iluminismo" - quando os homens resolveram pensar de forma independente, deixando os mandamentos da Igreja de lado - que se tornou possível o florescimento da ciência e, por meio dela, o raciocínio dito científico. Racional, por assim dizer. O "século das luzes" foi o 18 da era cristã.

Teria sido graças a essa nova forma de pensar o mundo que se tornou possível a revolução industrial e, por meio dela, todos os confortos da vida contemporânea. Aliás, a palavra "revolução", no sentido de revolver a ordem existente, entrou de vez no vocabulário político a partir daí. Se a razão humana foi capaz de criar maravilhas no campo científico e tecnológico, por que o mesmo não seria possível no que tange às relações humanas e à vida em sociedade?

Se nós, homens, não acreditássemos na possibilidade de nos aperfeiçoarmos, ninguém jamais ousaria nada. E estaríamos até hoje caçando ursos e morando em cavernas. Esse, em suma, é o pensamento dos progressistas.

Já para o pensamento conservador esse "culto ao progresso" tem limites. Para os modernos ambientalistas, esses limites são dados pela própria natureza. Para os conservadores políticos, os limites são dados pelos usos e costumes da sociedade.

Argumentam estes últimos que as leis, a moral e os valores sociais atualmente existentes são o resultado de milênios e milênios de tentativas e erros. Seria muita pretensão acreditar que nós, hoje, somos mais inteligentes do que todos os nossos ancestrais juntos.

Não haveria nada de novo sob o sol, dizem eles. Tudo já foi pensado e experimentado através dos tempos. E não existe filtro que depure com mais eficiência do que a História. Nada de modismos. Se a sociedade é assim, é porque não haveria outra maneira melhor de ser.

Como se percebe, os argumentos de ambas as partes são convincentes.

Em razão dos avanços tecnológicos, nós todos estamos acostumados a viver num ambiente de mudanças constantes. E também a nutrir a crença de que o "novo" é sempre melhor do que o "velho". Mas será que isso vale também para a sociedade? Os progressistas acham que sim, os conservadores dizem que não.

Entenda-se por progressistas todos aqueles que acreditam ser possível uma reengenharia do homem e da sociedade. O predomínio da razão sobre a natureza humana. São eles os marxistas, os positivistas e os revolucionários de todas as bandeiras. Todos eles tentaram transplantar o raciocínio científico para o âmbito das relações humanas. Alguns com sucesso. Outros não.

Com quem estaria a verdade? Será que existe, em termos políticos, alguma verdade?

Posicionar-se de um lado ou de outro, assim, se torna uma questão de escolha. Cada um de nós se guia de acordo com as próprias convicções.

Aliás, quem primeiro se sabe que idealizou uma sociedade perfeita foi o grego Platão. Apesar de ter vivido em Atenas, em seu apogeu, ele - como todos os revolucionários - não tinha lá muito amor pela democracia. Quem disse que o melhor para governar seria aquele que sabe amealhar mais votos?

Conta a História que o rei Dionísio, de Siracusa, impressionado com as suas ideias, o teria convidado para implantá-las no seu reino. Platão, entusiasmado, mudou-se para lá. Não deu certo. Tanto que, poucos anos depois, só restou ao rei mandar prendê-lo.

JORNALISTA, DEPUTADO ESTADUAL, FOI DEPUTADO FEDERAL, SECRETÁRIO E MINISTRO DE ESTADO

E-MAIL: J.MELLAO@UOL.COM.BR

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