Quem gosta mais de desinformação?

Para as plateias de direita extremada, tanto faz se o divulgado é mentira ou verdade

*EUGÊNIO BUCCI, O Estado de S.Paulo

22 Novembro 2018 | 03h00

A direita gosta mais de fake news do que a esquerda? Ou, em outros termos: as campanhas de candidatos de perfil “conservador” - os populistas, ultranacionalistas, que pregam soluções violentas para combater a criminalidade, elogiam governos autoritários, dizem defender a dita “família tradicional” e atacam gays e lésbicas - seriam mais propensas a lançar mão das fake news? Ainda não há dados conclusivos sobre isso, mas há indicativos fortes. Vejamos alguns deles.

Em 2016 o mundo descobriu, com um misto de surpresa e excitação, que jovens da Macedônia produziam conteúdos mentirosos para promover a candidatura de Donald Trump. Em seguida, repórteres do mundo inteiro foram atrás desses ativistas para entender suas razões. O que encontraram foi um tanto desconcertante. Os macedônios não tinham propriamente uma predileção pelo republicano loiro. Não queriam nem saber de política. O negócio deles era dinheiro. Eles apenas geravam notícias fraudulentas a favor de Trump e contra Hillary Clinton porque os eleitores dele eram fregueses mais vorazes que os dela. Um desses jovens, o designer Borce Pejcev, explicou tudo à Agência France Press: “Os conservadores eram mais propícios para fazer dinheiro, gostam das teorias da conspiração”. 

Então, era isso. Os macedônios difundiam notícias fraudulentas a favor do republicano porque as plateias trumpistas compartilhavam mais as invencionices que eles punham na rede. Compartilhando mais, as plateias conservadoras geravam mais likes, mais cliques, mais audiência e, com isso, mais lucros. Tudo era uma questão de dinheiro. Ponto. Naquele momento, porém, fora o dinheiro, que era pouco, surgiu o primeiro sinal de que as multidões direitistas são as que mais gostam mais de fake news.

Num estudo publicado em janeiro deste ano, ainda sobre a campanha de 2016 nos Estados Unidos, os pesquisadores Brendan Nyhan, do Dartmouth College, Andrew Guess, da Princeton University, e Jason Reifler, da University of Exeter, encontraram a mesma tendência e anotaram: “Os usuários simpatizantes de Trump eram mais propensos a visitar sites identificados como disseminadores de fake news”. 

Outra pesquisa, do Instituto de Internet da Universidade de Oxford, divulgada em 1.º de novembro, não desafinou da impressão geral. Em primeiro lugar, a pesquisa mostrou que a quantidade de junk news (um conjunto que agrega, além das fake news propriamente ditas, as mensagens de ódio, ou “discurso de ódio”, e as múltiplas versões de teorias conspiratórias) aumentou consideravelmente entre as campanhas de 2016 e de 2018 (as chamadas midterm eletctions). Em 2016, 20% das notícias analisadas eram junk news. Em 2018 o número subiu para 25%. Em segundo lugar, constatou que os grupos mais à direita sobrepujam os demais no uso das junk news. 

Numa classificação que vai de zero (nenhuma interação com junk news) a cem (interação apenas com junk news), os perfis de extrema direita nas redes sociais tiveram nota 89, a mais alta de todas. A direita tradicional, como o Partido Republicano, ficou com 83. As páginas ligadas a causas classificadas como progressistas - grupos feministas ou defensores do direito ao aborto, por exemplo - receberam nota 49. A esquerda institucional, de oposição a Trump, teve nota 24. Por fim, sites jornalísticos marcaram 20 pontos.

O estudo de Oxford pesquisou também a campanha brasileira de 2018, cujos resultados foram anunciados um pouco antes. Em outubro o pesquisador brasileiro Caio Machado, um dos integrantes do levantamento, contou ao Estado sobre o que foi observado no Brasil (reportagem de Beatriz Bulla, correspondente em Washington, publicada em 5/10). Aqui a pesquisa mostrou que tanto partidários de Haddad como aliados de Bolsonaro recorriam às fake news e às junk news, mas, segundo Caio Machado, “apoiadores do Bolsonaro compartilham notícias falsas em maior amplitude e replicam quase todas as fontes identificadas como falsas”. Ou seja, a diferença entre um polo e outro não estaria na estratégia das duas campanhas (ambas se teriam valido de mentiras), mas na aptidão dos dois públicos: o público mais conservador seria mais propenso, também no Brasil, a espalhar as notícias fraudulentas.

Ainda outra pesquisa, do Instituto Datafolha, divulgada em 2 de outubro, mostrou que seis em cada dez eleitores de Bolsonaro se informavam pelo WhatsApp, enquanto, entre os eleitores de Haddad esse número caía para 38% (ou quase quatro em cada dez). Por fim, em 26 de outubro o site Congresso em Foco noticiou que as agências de fact checking Lupa e Aos Fatos e o projeto Fato ou Fake, do Grupo Globo, tinham desmentido, desde o início da campanha, um total de 123 notícias fraudulentas muito compartilhadas. Dessas, 104 eram contra Haddad e o PT e apenas 19 eram prejudiciais a Bolsonaro e seus aliados.

Para se ter uma ideia da boçalidade que deu o tom dessa campanha, uma das junk news contra Haddad assegurava que o candidato do PT teria dito que as crianças, ao completarem 5 anos de idade, seriam consideradas “propriedade do Estado” - e caberia ao Estado escolher o gênero da criança. Essa mentira caluniosa foi desmentida pelo projeto Fato ou Fake, no G1, em 2 de outubro. 

Nada disso é conclusivo, evidentemente, mas vão se acumulando indícios convincentes de que as fake news (e as junk news) florescem mais nos canteiros do populistas ultraconservadores, ultranacionalistas e um pouquinho machistas. Por que será? Talvez - apenas talvez - porque a cultura política esteja atravessando uma mutação. As plateias da direita extremada parecem abrir mão do compromisso com os fatos e se encontram em rota de ruptura não apenas com as ideias de centro ou com as ideias de esquerda, mas com os próprios fundamentos da política democrática. Para essas plateias, se é mentira ou verdade, tanto faz.

*JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP

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