Quem mal informa o povo - e como

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou recentemente que o "... PT está fincado nos menos informados, coincidentemente os mais pobres. Não é porque são pobres que apoiam o PT, é porque são menos informados". Essa afirmação foi distorcida por críticos dilmopetistas, que atropelaram a lógica para atacá-lo.

Roberto Macedo, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2014 | 02h04

O que disse foi tomado como uma ofensa ao povo nordestino. Mas FHC não falou de nordestinos e essa armadilha lógica foi assim montada: 1) Ele disse que os mais pobres, que coincidem com os mal informados, votaram majoritariamente no PT; 2) o Nordeste é uma região predominantemente pobre; 3) logo, o ex-presidente tem preconceito contra os nordestinos.

Essa discussão voltou-se para os mal informados. É verdade que aí há problemas, como deficiências educacionais, e dificuldades de acesso a mais informações. Ou predominam outras. Por exemplo, o programa Bolsa Família costuma ser atribuído errônea e exclusivamente a Lula, daí advindo uma gratidão que determina o voto.

Mas grande parte da culpa pela má informação é de quem a oferta, ou seja, o sujeito da ação informativa, e não do cidadão objeto dela. Na propaganda eleitoral a candidata à reeleição pelo PT tem usado e abusado de armadilhas lógicas que podem iludir até pessoas de elevado nível educacional, pois isso não significa que estejam sempre atentas a questões de lógica.

Passo a outra armadilha do ramo. Trata-se da ultrarrepetida afirmação que atribui a Lula todo o mérito de uma taxa média de crescimento do PIB que em seu governo foi superior à dos anos FHC. Essa diferença de taxas de fato ocorreu, mas não se pode concluir que Lula foi quem a produziu. Entre outros aspectos, caberia levar em conta as diferentes circunstâncias que cada um enfrentou nos seus governos. FHC, já no governo Itamar, como ministro da Fazenda, herdou uma altíssima inflação e sérias dificuldades no setor externo, inclusive as causadas pela moratória da dívida externa brasileira decretada pelo governo Sarney (1986-1990). Esse impasse com credores externos por longo tempo prejudicou o fluxo de empréstimos e financiamentos para o Brasil.

Por essa e outras razões históricas, nos governos FHC o Brasil tinha escassas reservas, que vez por outra provocavam crises cambiais que encareciam o dólar, traziam mais inflação e aumento da dívida pública federal, incluída a interna, em parte indexada a essa moeda. Isso tornava inevitável o recurso a ajustes fiscais, que, embora impopulares, FHC teve a coragem de fazer. Lula e Dilma só souberam distribuir benesses.

Lula Sortudo da Silva herdou uma inflação domada nos dois governos anteriores. Outra sorte, e de imensas proporções, foi a bonança que veio com o deslanche da economia mundial durante a maior parte dos seus dois mandatos, impulsionada fortemente pela China. Entre outras benesses, vieram uma expansão maior do PIB, que gerou mais impostos, inclusive para ampliar programas sociais, e uma fenomenal acumulação de reservas, que afastou o fantasma das crises cambiais. Esse efeito-China teve tal dimensão que vejo o Partido Comunista, condutor daquele país, como o que mais fez pelo Brasil na década passada, se comparado aos muitos nossos.

Essas diferentes circunstâncias enfrentadas pelos dois presidentes podem ser comparadas às encaradas por peões de rodeios ao montarem diferentes touros. FHC foi peão de touros bravos, enquanto Lula se sentou nos mansos. Mas quando touros atuam dessa forma o peão não pontua e tem de pegar outro que pule o tanto que se espera dele. Ao sair, Lula fez-se substituir pela peoa Dilma, em quem viu uma competência que não se manifestou. No rodeio da economia, pegou um touro mais bravo, o Pós-Crise, e meteu-lhe as esporas de uma política econômica equivocada. Deu no que deu. Pode cair do touro. E o PIB que carregava já foi ao chão.

Passando a mais uma armadilha lógica, a de uma trama em que duas premissas corretas levam a uma conclusão equivocada, usada para malhar Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC) e atuante na campanha de Aécio. Tal armadilha foi assim montada: 1) Quando no BC, na era FHC, num dado momento Fraga aumentou bastante a taxa básica de juros; 2) ele será ministro da Fazenda se Aécio for eleito; 3) logo, ele elevará a taxa de juros da mesma forma. Essa armadilha lógica também deixa de lado as circunstâncias diferentes no passado e no presente, em particular sem lembrar que o aumento da taxa básica de juros por Armínio veio em resposta a uma crise cambial. Isso para reduzir a inflação resultante, evitar que divisas escassas fugissem do País e estimular o ingresso de novas.

Outra grosseira mistificação é dizer que FHC teria "quebrado" o Brasil três vezes. Aponta-se como evidência disso o fato de que ele recorreu ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para obter empréstimos. Ora, trata-se de instituição financeira internacional da qual o Brasil é sócio e o que ela empresta equivale a uma linha de cheque especial para que países possam honrar seus pagamentos externos e reforçar reservas. Usá-la não significa que o país esteja quebrado. Ao contrário, é para evitar que isso ocorra e se chegue a uma moratória, com todas as indesejáveis sequelas.

E mais: da última vez que o Brasil recorreu ao FMI, em 2002, uma das razões foi a necessidade de conter efeitos da especulação cambial que se manifestava em face de riscos então percebidos quanto ao que Lula faria na economia. Parcela desse empréstimo ficou à disposição dele como presidente. Ele se orgulha de no seu mandato o Brasil ter emprestado dinheiro ao FMI para que este ampliasse suas contas de cheque especial. Mas não serei eu a concluir que fez isso para que outros países pudessem quebrar ao utilizá-las.

Em síntese, há gente que mal se informa. Mas nesta eleição o destaque cabe a quem mal informa.

*Roberto Macedo é economista (UFMG, USP e Harvard) e consultor econômico e de ensino superior 

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