Quem perdeu na Fórmula Indy

As explicações do prefeito Gilberto Kassab para tentar justificar a interdição, por praticamente quatro dias, da pista local da Marginal do Tietê em toda a extensão entre as Pontes das Bandeiras e da Casa Verde e da Avenida Olavo Fontoura, para a realização da prova da Fórmula Indy, mostram o grau de insensibilidade com relação aos problemas que afligem a população da cidade a que chegaram as autoridades municipais. Para elas, tudo se passou como se nada de extraordinário tivesse ocorrido no último fim de semana, marcado por grandes aglomerações, como as comemorações do Dia do Trabalho, os jogos das semifinais do Campeonato Paulista de Futebol e, sobretudo, a prova da Fórmula Indy - inesperadamente em duas etapas, a última das quais concluída na segunda-feira, dia normal de trabalho para os paulistanos.

, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2011 | 00h00

A cidade, disse o prefeito em entrevista a uma emissora de televisão, estava preparada para as interdições causadas pela Fórmula Indy. Os milhares de paulistanos que tiveram suas atividades afetadas pela prova certamente discordarão do prefeito. Esses cidadãos tiveram de mudar de itinerário no deslocamento de casa para o trabalho, enfrentaram novos congestionamentos que se somaram aos que normalmente enfrentam e ainda tiveram a desagradável surpresa de descobrir, na segunda-feira, que os problemas iniciados antes do fim de semana e que deveriam ter sido eliminados na madrugada daquele dia persistiriam pelo menos até o início da tarde.

O que os paulistanos menos precisam é de falsas explicações para problemas adicionais que, por sua exclusiva decisão, as autoridades municipais lhes impõem. Foram elas que autorizaram a realização da corrida em circuito de rua numa região de tráfego intenso e foram elas também que concordaram com a conclusão, na segunda-feira de manhã, da prova interrompida no domingo por causa da chuva. Os munícipes precisam de uma administração responsável, que meça criteriosamente as consequências das decisões que toma antes de cumpri-las.

O trânsito na região começou a piorar mais de um mês antes da corrida, por causa de obras como a repavimentação do piso do circuito, a colocação de defensas na pista, a instalação de tapumes de alumínio em diversos trechos, para impedir a aglomeração de curiosos nas proximidades, o que poderia causar problemas ainda maiores para o trânsito na região. Essas obras acarretaram a interdição parcial de duas importantes avenidas.

Desde a noite de quinta-feira, o tráfego foi totalmente proibido na área. Se tudo corresse bem, a interrupção se estenderia até as 5 horas de segunda-feira, quando então a circulação de veículos na área começaria a se normalizar. Mas a chuva forte no domingo à tarde, no horário da prova, obrigou seus organizadores a suspendê-la e a concluí-la na segunda-feira, com a concordância da Prefeitura.

Na sexta-feira, primeiro dia útil de interdição das vias do entorno do Parque Anhembi e do sambódromo, a Marginal do Tietê registrou congestionamento de até 9 quilômetros no sentido Castelo Branco. Na sexta-feira útil anterior (dia 15 de abril, pois o dia 22 foi feriado), o pico do congestionamento foi de 5,3 quilômetros. Durante boa parte da manhã de segunda-feira, o congestionamento foi de 10 quilômetros. Em toda a cidade, a Companhia de Engenharia de Tráfego contabilizou 115 quilômetros de vias congestionadas.

Ao justificar os congestionamentos, o prefeito Gilberto Kassab lembrou que São Paulo tem 7 milhões de veículos e que 5 milhões de pessoas utilizam transporte pessoal pois não têm alternativas, "por descaso nas últimas décadas do poder público, que não investiu em transporte público". A explicação é correta, mas a Prefeitura concordou com a realização da prova automobilística, sob a alegação de que São Paulo precisa receber grandes eventos internacionais. De fato, a cidade pode sediar esses eventos, desde que realizados em locais adequados - e que os paulistanos que não participam da festa não sejam prejudicados.

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