Quem pode defender a verdade?

Se a política perde sua capacidade de basear-se na análise dos fatos, a democracia se desfaz

*EUGÊNIO BUCCI, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2018 | 03h00

Na terça-feira, Donald Trump deu mais uma guinada a respeito da interferência russa nas eleições americanas de 2016. Ele, que negava raivosa e reiteradamente a possibilidade de que os russos tivessem atuado clandestinamente na campanha de 2016, agora declarou que aceita a tese.

O resultado dessa mudança de atitude para o futuro de seu governo ainda é uma incógnita, mas pelo menos uma certeza sai reforçada: a cada dia fica mais irrefutável o impacto dos ardis tecnológicos para fraudar os processos decisórios das democracias. Os russos elegeram Donald Trump? Isso não se sabe, ainda, mas nem mesmo Trump é capaz de refutar as evidências da extensão e da profundidade do alcance das fake news nas sociedades democráticas.

Como proteger a democracia? Como defender a verdade dos fatos contra as fraudes? Como fortalecer a política e seu compromisso com a verdade factual? Antes de responder, aprendamos um pouco mais com o rumoroso caso americano.

Para que o leitor refresque a memória, recapitulemos rapidamente a novela subterrânea acerca da suspeita de que os russos tenham atuado como cabos eleitorais de Donald Trump. Durante a campanha de 2016, um bombardeio de fake news, num volume e numa intensidade sem paralelos até então, distorceu o debate público. Entre as mentiras alardeadas como verdadeiras estava aquela de que o papa Francisco tinha declarado seu apoio a Trump. A desconfiança de que agentes russos teriam agenciado a artilharia de mensagens desinformativas só apareceu mais tarde e, até agora, os nexos não são claros. O tema passou a ser investigado pelo FBI, os dirigentes de três das empresas pelas quais se propagam as fake news – Facebook, Twitter e Google – foram chamados a depor no Congresso e o chefe de campanha de Trump, Paul Manafort, foi preso. O caso ainda vai render, mas a certeza de que as fake news estão a serviço de forças obscuras interessadas em sabotar as democracias vai ficando mais e mais sólida.

Muita gente ainda tem a impressão de que as notícias fraudulentas não passam de uma forma de travessura sem maiores consequências, como eram os trotes de telefone de antigamente. Esse erro de avaliação está nos custando caro. Embora existam fake news que parecem pura molecagem apolítica, o que está em marcha vai além de um trote telefônico ou de um conto do vigário.

É verdade que vários dos disparates que ajudaram Trump a se eleger vieram de grupos juvenis da Macedônia (um bando de moleques, você pode dizer). Não eram espiões nem agentes secretos de uma conspiração internacional; eram garotos que inventavam sandices para ganhar uns trocados das redes sociais e dos sites de busca, que os remuneravam com base no número de cliques. Mas esses jovens eram apenas a mão de obra de uma indústria bem maior do que eles, cujo efeito é interditar a verdade factual. Não são os jovens da Macedônia, mas esta indústria global que concorre para esvaziar a política de seu lastro necessário na verdade factual.

Se a política perde sua capacidade de discutir os fatos e de tomar decisões com base na análise dos fatos, a democracia se desfaz. Nessa perspectiva, as fake news conformam uma onda antipolítica e uma cultura antidemocrática, sem referência nos fatos. A cultura antidemocrática dá curso aos ódios, às crendices ridículas ou mirabolantes, às idolatrias sem pé nem cabeça às formas variadas de desumanidade.

A indústria globalizada que remunera a fraude noticiosa está deformando ainda mais a prática política (que já vinha de outras tantas deformações) e o receituário dos políticos. Candidatos em diversos países estão aprendendo a se apropriar das técnicas digitais de fabricação das fake news para se dar bem (aos mais interessados, vale ver um rápido artigo Politicians are using fake news schemes to get elected, da repórter Sara Fischer, no Axios.com). No Brasil há políticos que, a pretexto de “combater fake news”, investem contra as reportagens investigativas das quais não gostam – no que seguem o exemplo de Donald Trump, que, para desacreditar a imprensa, acusa o The New York Times e a CNN de serem centros difusores de fake news.

Atenção para a semântica: “fake news” tem a aparência de notícias, mas são notícias falsificadas, ou seja, são produto de redações falsificadas (fake newsrooms). Redações profissionais sérias podem publicar erros ou inverdades, mas suas notícias não são falsificações de notícias – são, na pior das hipóteses, notícias incorretas que serão corrigidas. Portanto, dizer que o New York Times ou a CNN fazem fake news é uma contradição em termos. Ao inverter o sentido da expressão, Trump e seus imitadores tentam varrer do debate público a única proteção que nos resta para a verdade factual: a imprensa.

Enfim, quem pode defender a verdade? A imprensa. Num tempo em que a fraude desinformativa se instala no núcleo das relações industriais de produção da retórica na política, num tempo em que a política tende a conspirar contra as bases da democracia, a imprensa é a instituição que, hoje, pode assumir a defesa da verdade dos fatos. Não é o Estado, não é o Tribunal Eleitoral, não são os políticos. A única esperança é a imprensa. Nunca foi tão grande a responsabilidade dos jornalistas.

Há poucas semanas, um grupo reunindo algumas das melhores redações profissionais no Brasil, entre as quais o Estadão, anunciou que elas trabalharão em conjunto para combater as fake news, por meio do Projeto Comprova. Na missão de defender a verdade factual, esses diversos veículos não atuam como concorrentes, mas como aliados – num sinal claro de que alguma consciência existe nas redações brasileiras. Neste caso, como em outros, a função pública do jornalismo fica acima dos interesses comerciais.

Por tudo isso, o Projeto Comprova tem boas chances de funcionar. Na França, um esforço semelhante ajudou no processo eleitoral. Que dê certo também no Brasil.

*JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP

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