Quem sabe faz a hora

Não podemos entrar na terceira década do século 21 com líderes do século passado

Priscila Cruz e Rafael Parente, O Estado de S.Paulo

29 Abril 2017 | 03h02

É crescente o sentimento de estarmos caminhando para um esvaziamento político, de rareamento de candidatos viáveis para 2018 e fragilidade da governabilidade. Novos nomes não garantem a tão necessária nova política, ou a reconstrução do País. Mas não sairemos do lugar se continuarmos fazendo as mesmas coisas com as mesmas pessoas.

É difícil imaginar que as lideranças políticas que estão no comando há décadas serão capazes de agir de modo diferente, de promover políticas públicas para a instituição de uma democracia participativa, um Estado empreendedor ou um governo digital. Na contramão de mais abertura e transparência, há a tentativa de construir muros na reforma política em discussão no Congresso Nacional que impeçam a participação da nova geração, com a defesa de cláusulas de barreira que privilegiam os grupos atuais e o voto em lista fechada.

Como em outras áreas, a inovação começa na periferia do sistema, cresce e amadurece em direção ao centro. No caso, ao centro do poder. Já é possível ver movimentações crescentes da juventude brasileira que quer pensar o País e participar da política. São estudantes do ensino médio, ativistas, empreendedores sociais, lideranças em áreas como segurança pública, meio ambiente, educação de 20, 30, 40 anos. A maioria está do lado de fora dos partidos políticos e tem dificuldade para se inserir na lógica partidária atual, uma vez que a governança é mal implementada (por isso movimentos a favor das prévias, como o Quero Prévias) e há pouco diálogo interno para a construção de princípios, diretrizes e projetos (por isso movimentos que buscam ampliar o diálogo e rejeitam as polarizações paralisantes, como o #VemPraRoda). Alguns nomes da renovação querem entrar na política nacional, mas como candidatos independentes (como os da Bancada Ativista), porque não se sentem representados pelos partidos, e outros estão se articulando para estabelecer novas estratégias de entrada coletiva na política, partidária ou não, como o Agora! e o Acredito.

Diferentemente dos movimentos juvenis dos anos 60 e 70, que tinham outros desafios e uma agenda muito mais focalizada – notadamente na luta contra a ditadura –, os de hoje têm agendas mais difusas, o que pode significar maior relevância ou risco de irrelevância. Pretendem refundar a política nacional sobre uma nova base ética, para a construção de um País com menos desigualdade social e econômica, ambientalmente mais sustentável, com menos violência e mais tolerância. Um Brasil que defina seu projeto de desenvolvimento sabendo valorizar a diversidade, a alegria, as manifestações de fé, os biomas e a cultura de sua gente. Um País que invista em seu povo e esteja aberto à maior participação de todos.

Ainda não há como saber para onde vão esses movimentos. Podemos supor que alguns vão crescer e outros, se fundir, desaparecer, ressurgir em outros tempos e espaços. Mas é possível afirmar que muitas pessoas envolvidas na agenda inicial deles em breve estarão ocupando as mais altas posições de decisão do nosso país. É possível também arriscarmos dizer que teremos um pouco mais de renovação nas eleições de 2018 e muito mais nas de 2022. Não podemos entrar na terceira década do século 21 com as mesmas lideranças da metade do século passado. A renovação é imperativa e o revigoramento das instituições democráticas, uma necessidade. O pior que pode nos acontecer é não aproveitarmos este momento de crises múltiplas – ética, econômica, política – para criar um novo projeto de nação, com renovadas e fortalecidas formas de atuação, tanto governamentais quanto da sociedade civil. Um projeto de nação que corrija o maior erro do nosso passado – o descaso com a base de um país que pretende ter desenvolvimento econômico e social sustentável: o compromisso com educação básica pública de qualidade para todos.

Além de abertura para que a geração mais jovem ocupe espaços no Executivo e no Legislativo e construa um novo Brasil, é igualmente importante termos uma sociedade civil fortalecida, que saiba debater entre si, formular posições que vão além dos consensos rasos e tenha agendas de incidência com os governos. Ainda há poucos grupos organizados assim. São movimentos políticos – pois, ainda que não partidários, participam ativamente nas decisões de políticas públicas – como Nova Democracia, Todos Pela Educação (TPE), Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Ceipe, Rede Nacional da Primeira Infância, Igarapé, Sou da Paz, Nossa São Paulo e Meu Rio. Além deles, também são fundamentais as organizações sociais que estão surgindo com modelos inovadores e comandadas por jovens lideranças, que visam a apoiar a melhora da gestão pública e preparar agentes públicos, como Vetor, Ensina, MGov, Tellus e Datapedia.

Assim começamos a construir outra relação entre a sociedade e os governos, muito mais conectada, participativa, transparente e aberta. São grupos que podem fazer o que fazem porque gerações anteriores lutaram contra a ditadura e pela democracia, iniciaram um terceiro setor mais profissionalizado no Brasil e deram espaço para a juventude atuar. O mesmo precisa ser feito na esfera governamental. Ainda somos poucos. As condições para a participação efetiva de todos são desiguais, pari passu com as desigualdades sociais, econômicas e educacionais, que na maioria das vezes se sobrepõem.

A construção de um espaço democrático qualificado na sociedade civil – uma democracia real e amadurecida –, que supere as polarizações superficiais, é condição essencial para a renovação das práticas e lideranças públicas, para alcançarmos um novo patamar de desenvolvimento, para termos um País que reflita as aspirações de sua população, e não projetos de poder personalistas, que têm como fim o poder em si mesmo.

*Mestre em administração pública pela Harvard Kennedy School, é sócia-fundadora e presidente executiva do TPE; 

Doutor em educação pela Universidade de Nova York, é sócio efetivo do TPE

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