Queremos ser a capital do grafite?

A coerência estética de uma cidade pode ser completamente arruinada sem o devido planejamento. São Paulo, é preciso que se destaque, nunca foi um exemplo nesse quesito, mas agora, com as intervenções visuais recentes, degringolou de vez. Sem consultar ninguém, os nossos governantes decidiram franquear as fachadas públicas aos multicoloridos grafites. Primeiro, fica a minha dúvida sobre a qualidade dessa produção "artística", levando em conta que aparentemente não houve nenhum critério para a seleção dos "artistas", selecionados para da noite para o dia modificarem a nossa paisagem. Depois, sempre disse que o grafite é uma manifestação fascista, pois não permite escolha, é-nos imposto, assim como aos visitantes da cidade de São Paulo, sem termos direito de opinar, sem poder dizer se queremos ver isso ou não.

Roberto Duailibi, O Estado de S.Paulo

04 Março 2015 | 02h05

Não sou crítico de arte nem grande colecionador e também compreendo que a arte não deve ter limitações nem censuras e novos caminhos são sempre bem-vindos. Mas, na minha avaliação, esse não é o caso dos grafiteiros, fundamentalmente conservadores, que apenas ainda não aprenderam a pintar.

Suponho que governar uma metrópole como São Paulo é fazer as coisas para o bem comum, é agir com bom senso e perceber que nem tudo agrada a todos. Neste caso, o grafite (assim como sua irmã, a pichação) está longe de ser unanimidade. Os arcos da 23 de Maio, esses, sim, um acervo arquitetônico, viraram um poluído mural que deixou de ser histórico e nem pode ser considerado artístico. Um dos grafiteiros diz que pintou o rosto de um homem negro, mas o resultado final foi a reprodução do rosto de Hugo Chávez, sobre o qual outro grafiteiro já pintou desenhos obscenos.

O mesmo se deu na Avenida 23 de Maio. Corredor para o Aeroporto de Congonhas e bairros importantes, a via está uma parafernália, para não usar outros termos. Virou uma mistura de tintas, grafites e pichações que vieram na sequência, um emaranhado de cores que ninguém decifra. Ninguém entende mais nada, não se sabe onde começa um desenho e onde termina o outro.

O Túnel 9 de Julho, então, está se transformando num túnel dos horrores. Penetrar nele é como entrar num enorme lixão. Por isso tudo, liberar o espaço público para o grafite é como liberar as praças públicas para o ruído sem limites - ou para qualquer ruído. E essa falta de controle resulta não apenas numa cidade feia: dois grafiteiros já despencaram do alto de um edifício, tendo um deles morrido; houve outro caso em que um grafiteiro abateu dois outros a tiros, em pleno centro.

Quando falamos das grandes metrópoles do mundo, para onde convergem turistas e pessoas com a finalidade de fazer negócios, imaginamos várias formas de intervenções visuais, mas passamos longe do que está acontecendo em nossa São Paulo. Além do visível mau gosto, não temos nessas ações nenhum critério senão o de desrespeito ao bem público.

Por isso tudo tenho me perguntado: com base em qual planejamento ou opiniões foram tomadas essas decisões? Quem se reuniu com quem para concluir que poluir visualmente toda a cidade era um anseio coletivo?

Em determinados lugares do mundo, alguns de nossos grafiteiros fazem sucesso, como é o caso de Os Gêmeos, para não dizer o nome de outros que enfeitam a parede de mansões milionárias. Estamos falando de uma intervenção importante e definida especificamente para um local. Bem pensado e planejado, o grafite pode até valorizar o patrimônio público. Mas deve estar de forma estrategicamente planejada aqui e acolá, e não por todo canto. Não podemos, a partir de exemplos tópicos mundiais, achar que todos os muros, pontes, viadutos e paredes limpas de São Paulo precisam receber essa overdose de tintas coloridas. Isso fere nossa percepção da cidade e sua governança. Deveríamos, os habitantes, antes, ser consultados.

Quando São Paulo adotou a política da Cidade Limpa, determinando a retirada de toda e qualquer propaganda das ruas e fachadas de prédios, prontamente a população aprovou. De fato havia exageros e muitas campanhas publicitárias, cartazes e luminosos acabavam por encobrir a verdadeira identidade arquitetônica da cidade. A retirada daquele material devolveu a São Paulo um pouco do seu DNA.

Ao escrever este artigo fico pensando qual imagem estamos passando a quem nos visita. O turismo na cidade de São Paulo é predominantemente de negócios, pela pujança financeira da cidade, e recreativo e de entretenimento pelas inúmeras opções culturais e gastronômicas. Temos, além disso, muitos museus interessantes e uma arquitetura que, mesmo sofrendo a falta de zelo, ainda atrai muitos olhares. Li outro dia que a cada seis minutos um evento é realizado em São Paulo. Por conta disso, temos aqui a melhor rede hoteleira do Brasil e constantemente estamos recebendo investimentos nesse sentido.

São feiras, exposições, convenções, reuniões importantes, desfiles, mostras, eventos esportivos, etc. Muito de tudo isso tem relevância mundial e imagens da cidade são transmitidas para os quatro cantos. Estamos falando de milhões de pessoas que passam por nossas ruas todos os dias. Com as redes sociais, a cada segundo milhões de imagens da nossa cidade circulam nos computadores e meios digitais, TVs e meios impressos. São essas as imagens que queremos mostrar ao mundo para falar de São Paulo? São essas as imagens que queremos que as pessoas levem a seus locais de origem?

Neste momento, as únicas pessoas felizes com o que está acontecendo creio que são os fabricantes de tintas e latas de spray, que nunca venderam tanto. Cabe, então, aos governantes responder aos paulistanos que são obrigados a conviver com essa paisagem todos os dias: queremos ser a capital do grafite?

PUBLICITÁRIO, É SÓCIO-FUNDADOR DA DPZ PROPAGANDA

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