Questões chinesas em tempos de transição

A cena passou-se no aeroporto de Xangai em 1994. "Você tem direito a três erros. Ontem você cometeu o primeiro", ouvi de Javed Burki, então diretor do Departamento da China no Banco Mundial. Na véspera, encerrando uma conferência, eu usara a expressão "privatização" em vez de "reforma das empresas estatais" ou "descentralização da propriedade". Lembrei-me da minha gafe política ao ler nos jornais brasileiros a discussão sobre o uso dos termos concessão e privatização.

ELIANA CARDOSO, O Estado de S.Paulo

14 Março 2012 | 03h09

Embora o vocabulário oficial chinês proibisse o uso do termo "privatização", o governo - mesmo guardando para si importantes monopólios - liquidou e privatizou milhares de empresas estatais. A criação de mercados para produtos agrícolas na década de 1980 e as privatizações dos anos 90 formaram os alicerces do milagre chinês. Essas medidas coincidiram no tempo com outra mudança: uma transição de caráter global, anunciada pela queda do Muro de Berlim.

Naquele ano de 1989, o massacre da Praça da Paz Celestial assustou o mundo. A China respondia não apenas à revolta doméstica, mas tornava clara a estrutura que lhe permitiria, ao contrário da União Soviética, trilhar um caminho de reformas graduais, mantendo a ditadura do Partido Comunista.

Assim, o surgimento da China e o fim da União Soviética marcaram o início dos tempos de transição que ainda vivemos. Lá se foi a era durante a qual, desde o século 15, países europeus - Portugal, Espanha, França, Inglaterra e a União Soviética, sucessivamente - gozaram, em nível global, de poder econômico, militar e político.

Com o desmantelamento da União Soviética, os EUA deixaram de ter rivais na arena mundial. Desde 2008, entretanto, essa supremacia se encontra ameaçada tanto por fraquezas internas (como a crise econômica, a crescente disparidade de renda, a deterioração da infraestrutura, o inchaço da dívida pública e a paralisia política) quanto por fatores externos (como as guerras no Oriente Médio e no Afeganistão, a ameaça de conflito com o Irã e o avanço da ascendência econômica chinesa).

Em tamanho do PIB, a China já passou à frente dos EUA, escreve Arvind Subramanian, pesquisador do Peterson Institute for International Economics. Os cálculos de Subramanian dependem da escolha de uma taxa de câmbio com base na paridade do poder de compra. A tarefa é ainda mais complicada que a de descobrir qual é a taxa neutra de juros no Brasil. Portanto, ao comparar os PIBs dos dois países, ainda me aferro ao uso da taxa de câmbio comercial, da qual depende o poder de compra nos mercados internacionais. Nesse cálculo mais simples, a China ainda não chegou lá, mas está a caminho.

Um dos sintomas da competição sino-americana é o combate verbal na imprensa dos dois países. Os chineses escrevem no Global Times: "A Rússia pagou um preço altíssimo pela transição democrática e a lição é clara: não devemos cometer o mesmo erro. O Ocidente quer apenas usar o discurso a favor da democracia para promover seus interesses. A crítica americana da prisão de dissidentes visa o boicote da autoridade chinesa e a obstrução de seu poder no cenário mundial".

Teoria conspiratória? Assim parece. Mas precisamos reconhecer que, ao pedirem democracia à China, os EUA convidam os governantes do país rival a abrir mão do poder. Portanto, não há surpresa na forma como os chineses interpretam a atitude americana e a ela reagem.

Os EUA também sofrem de paranoia. Os oráculos americanos estão convencidos de que o sucesso em evitar o impacto da crise de 2008 subiu à cabeça dos líderes chineses e os convenceu da excelência do partido único e do caminho traçado desde o final da década de 80. Entre os críticos americanos está Aaron Friedberg. Seu livro, A Contest for Supremacy: China, America and the Struggle for Mastery in Asia acusa a China de dominar os vizinhos, apontando o Tibete e Taiwan como exemplos óbvios. Ele teme que a dominação da Ásia pela China negue aos EUA acesso a mercados, tecnologia e recursos essenciais à vida americana.

A hostilidade latente entre a China e os EUA se revela na guerra cambial. A China resiste à valorização do yuan e o Fed tenta desvalorizar o dólar, enquanto o Banco Central Europeu procura, por sua vez, trazer o euro para baixo. O fogo cruzado espalha estilhaços pelo resto do mundo, forçando os emergentes a fazer uso temporário de barreiras ao capital estrangeiro.

No longo prazo, a supremacia chinesa parece inevitável. Temo pelo declínio do império americano - o que poderia tornar a cooperação econômica global mais difícil. Este não é um argumento a favor da supremacia dos EUA. Constato apenas que o mundo em transição é mais perigoso e incerto que o da segunda metade do século 20.

A dispersão do poder e o advento de populações mais vocais e assertivas fazem parte do cenário do novo milênio. Essa realidade renovada torna impossível a volta da hegemonia americana na sua encarnação de 20 anos atrás. Apesar disso, seria desejável que os EUA, ainda imprescindíveis na determinação do futuro mundial, fossem capazes de acomodar o peso crescente da China, para não aumentarem as incertezas que nos cercam neste mundo desconjuntado, onde ainda teremos de aprender a viver.

Enquanto isso, se você tem negócios na China e carrega segredos industriais, aqui vão algumas medidas de natureza prática. Em suas visitas ao país dos mandarins, lembre-se de deixar o telefone celular e o laptop em casa: alugue outros para uso temporário. Incapacite o Bluetooth dos aparelhos e, na volta, trate de limpá-los. Vigie seu telefone todo o tempo e o desligue durante reuniões. Nunca digite senhas de acesso: você pode carregá-las num pen drive para copiá-las e colar quando necessário. Finalmente, se seu telefone for inspecionado na alfândega chinesa, não torne a usá-lo. Boa viagem e bons negócios!

 

*PH.D. EM ECONOMIA PELO MIT, É AUTORA DE 'MOSAICOS DA ECONOMIA' (SARAIVA, 2010). SITE: WWW.ELIANACARDOSO.COM

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