Razões para algum otimismo

Como sempre fazem, os economistas do BC procuram cercar com cautelas suas afirmações e projeções, condicionando-as ao comportamento de diversos indicadores

O Estado de S. Paulo

02 Abril 2017 | 05h00

O Relatório Trimestral de Inflação recém-divulgado pelo Banco Central (BC) reforça as expectativas predominantes no mercado financeiro de que, em sua próxima reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) fará um corte maior da taxa básica de juros Selic do que os que aprovou nas duas reuniões anteriores, quando decidiu, em cada uma delas, a redução de 0,75 ponto porcentual. Após reconhecer que “a inflação apresenta dinâmica favorável” e que a queda média dos preços se difundiu para diferentes componentes do índice inflacionário, o que dá “maior robustez” ao movimento, o Relatório afirma que o cenário “fortalece a possibilidade de uma intensificação moderada do ritmo de flexibilização da política monetária”. O adjetivo “moderada” serve para conter o entusiasmo dos que esperavam um corte mais profundo da Selic na reunião do Copom marcada para os dias 11 e 12 de abril e sugere fortemente que a próxima redução deverá ficar em 1 ponto porcentual.

Como sempre fazem, os economistas do BC procuram cercar com cautelas suas afirmações e projeções, condicionando-as ao comportamento de diversos indicadores. Assim, a “intensificação” do ritmo de redução da taxa básica de juro dependerá do ritmo de queda dos preços, da duração do processo de desinflação e da evolução da economia. As estimativas, obviamente, “envolvem incerteza e poderão ser reavaliadas pelo Comitê ao longo do tempo”, ressalva o documento. A ressalva se aplica não apenas às expectativas de inflação para os próximos meses, como também para os dois próximos anos.

A despeito da compreensível moderação com que o BC avalia o cenário econômico, o Relatório contém elementos que justificam algum otimismo com relação aos próximos meses. O primeiro deles diz respeito à própria inflação, que é o foco do documento. Num dos cenários híbridos considerados pelos economistas do BC – que se baseia na taxa de câmbio constante em R$ 3,10 e na Selic projetada pelos analistas do mercado ouvidos semanalmente na pesquisa Focus do BC –, a projeção da inflação em 2017 caiu de 4,7% no relatório anterior para 3,9%; para 2018, a redução foi de 4,5% para 4,3%. No segundo cenário híbrido – taxa de câmbio variando conforme as projeções do Focus e Selic estável em 12,25% ao ano –, a inflação de 2017 se reduziu de 4,4% para 3,9%; a de 2018, no entanto, subiu de 3,7% para 4,2%.

Em qualquer dos casos, a projeção está abaixo da meta de 4,5%, com tolerância de 1,5 ponto para mais ou para menos, fixada tanto para 2017 como para 2018. As projeções do BC para 2019 também indicam inflação abaixo da meta. Para os anos posteriores, para os quais ainda não há meta, as projeções estão abaixo de 4,5%.

O preço dos alimentos, que pressionou a inflação no terceiro trimestre de 2016, agora tem efeito contrário. Segundo o BC, a inflação da alimentação no domicílio, que alcançara 16,8% nos 12 meses encerrados em agosto de 2016, acumulou variação negativa de 4,3% nos 12 meses até fevereiro de 2017. Pode-se imaginar como essa variação afetou o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Mas o diretor de Política Econômica do BC, Carlos Viana de Carvalho, observou que o preço dos alimentos não é o único fator de queda da inflação. “A desinflação é claramente mais difundida”, diz ele, pois, mesmo excluído o efeito dos alimentos, o IPCA é declinante.

Mas o Relatório não contém apenas projeções animadoras. A previsão para o crescimento da economia em 2017 piorou. No documento anterior, o BC projetava crescimento de 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, o que já era um número modesto; no mais recente, a projeção foi reduzida para 0,5%. Ao contrário do crescimento de 0,3% previsto no relatório anterior, a formação bruta de capital fixo, que indica o volume de investimentos na economia, deverá cair 0,3% neste ano, segundo a projeção mais recente. O quadro externo, diz o BC, continua “bastante incerto” e, no plano interno, a retomada depende do avanço das reformas em tramitação no Congresso.

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