Reaproximação com os EUA

Ao cumprimentar a presidente Dilma Rousseff por sua reeleição, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, enfatizou o "valor estratégico" da parceria com o Brasil e reforçou seu "compromisso com a cooperação em áreas como comércio, energia e outros temas bilaterais". Em resposta, Dilma disse ter "todo o interesse" em estreitar as relações com os EUA. Os gestos de parte a parte indicam que o pior momento das relações entre os dois países nos últimos tempos já passou, pavimentando o caminho para uma necessária reaproximação.

O Estado de S.Paulo

02 Novembro 2014 | 02h04

Dilma ainda não recebeu o pedido de desculpas que exigiu do governo Obama quando se descobriu, no ano passado, que os arapongas americanos podem ter espionado a presidente e a Petrobrás. O escândalo fez a petista cancelar a visita de Estado a Washington prevista para outubro de 2013 e a levou a criticar duramente os americanos em pronunciamento na ONU. Desde então, os dois não se falaram mais - o telefonema de Obama, na terça-feira passada, a propósito da vitória eleitoral de Dilma, serviu para quebrar o gelo.

A reação enfática de Dilma naquela época foi correta. Embora a espionagem internacional seja prática corrente em todo o mundo - e seria ingenuidade acreditar que uma potência como os Estados Unidos tenha escrúpulos ao usar seu formidável aparato de inteligência quando lhe convém -, não é aceitável que países amigos sejam alvo da bisbilhotice dos EUA sem um bom motivo para isso. Flagrada pelo vazamento da informação, a Casa Branca não ofereceu nenhuma explicação razoável ou mesmo uma retratação ao governo brasileiro.

Ao longo deste ano, porém, os americanos enviaram alguns sinais de sua disposição para a retomada das relações com o Brasil. O ponto alto se deu quando o vice-presidente Joe Biden veio ao País para prestigiar a Copa do Mundo e para se encontrar com Dilma. Biden não ofereceu as desculpas que Dilma queria, mas expressou confiança na reaproximação.

Na segunda-feira passada, a propósito da reeleição de Dilma, o secretário de Estado americano, John Kerry, deixou claro que a "relação estratégica" com o Brasil é considerada "vital" para os Estados Unidos e é "maior do que qualquer divergência".

Aos acenos de Obama, Biden e Kerry - isto é, os principais integrantes do aparato diplomático americano -, deve-se somar o acordo, firmado recentemente entre Estados Unidos e Brasil, para encerrar uma década de contencioso sobre os subsídios pagos aos produtores americanos de algodão. Tais gestos mostram o quanto o atual governo dos Estados Unidos preza o Brasil e espera retomar o diálogo. Faz todo sentido que Obama e Dilma se esforcem na direção da rápida normalização diplomática, pois o estremecimento não combina com a intensidade do comércio entre os dois países.

No primeiro semestre deste ano, os Estados Unidos foram o maior importador de manufaturados brasileiros, superando a Argentina. Os americanos são também os principais clientes do agronegócio nacional. Diante do evidente enfraquecimento da economia brasileira e das amarras criadas pelo Mercosul, que impedem o Brasil de fazer acordos comerciais mais vantajosos, seria imprudente manter um clima de hostilidade com os Estados Unidos.

Diplomatas brasileiros dizem que não se pode esperar que Dilma desista do pedido de desculpas pelo caso da espionagem, mas está claro que ela está disposta a trabalhar com Obama mesmo que o pedido demore a ser feito ou seja considerado insatisfatório. Assim, a presidente já sinalizou que aceitará um convite para a visita de Estado que deveria ter acontecido no ano passado. Em nota que resumiu a conversa de Dilma com Obama, o Planalto informou que os dois governos vão começar a trabalhar na preparação da viagem de Dilma, que deverá acontecer "em momento oportuno".

Espera-se que, a partir dessa reaproximação, a presidente abandone a atitude antiamericana e terceiro-mundista que predomina no governo petista, compreendendo que o melhor caminho na relação com os Estados Unidos é o pragmatismo.

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