Reaproximação com os EUA?

A vitória republicana nas eleições legislativas americanas da última terça-feira tornou possível um entendimento entre a Casa Branca e os novos donos do poder no Congresso sobre a concessão ao presidente Barack Obama da autoridade para negociar acordos comerciais e levar adiante iniciativas pendentes, como as parcerias transpacífica e transatlântica de liberalização do comércio e dos investimentos. Essa é a notícia - boa para os Estados Unidos e os países de economia aberta, ruim para um Brasil cada vez mais fechado e menos competitivo - que Obama dará à presidente Dilma Rousseff na cúpula do G-20, na Austrália, no próximo fim de semana, depois de participar do Fórum de Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (Apec), em Pequim. Em outras palavras, o autoimposto isolamento internacional do Brasil está prestes a aumentar.

Paulo Sotero, O Estado de S.Paulo

11 Novembro 2014 | 02h04

Tal perspectiva é o dado novo à luz do qual devem ser lidas as mensagens que Washington enviou à líder brasileira nos últimos dias para cumprimentá-la pela reeleição e propor a retomada de um diálogo consequente entre o Brasil e os EUA, no qual ela parecia sinceramente empenhada até a revelação dos atos de espionagem levarem ao cancelamento de sua visita de Estado a Washington.

Salta à vista o número de sinais positivos que o governo americano enviou a Dilma. O desejo de Washington de investir numa relação mais produtiva com Brasília foi transmitido pelo próprio Obama em telefonema que fez para Dilma na semana passada. O líder americano salientou o "valor estratégico"que vê nos laços com o Brasil e seu desejo de aprofundar a cooperação em áreas como comércio e energia. O secretário de Estado, John Kerry, reforçou a mensagem, dizendo que a relação bilateral é "estratégica e maior do que qualquer diferença". O vice-presidente Joseph Biden, que visitou Dilma duas vezes desde o ano passado, ligou para reiterar "a importância da crescente parceria global entre nossos dois países e dos laços que unem nossos povos". Biden disse que espera estar logo novamente com a presidente brasileira para conversar sobre "uma agenda ampla". Dilma agradeceu, afirmando que o fortalecimento das relações é "uma prioridade para o Brasil".

Por trás dessa profusão de mensagens está o diplomata Thomas A. Shannon, conselheiro de Kerry e ex-embaixador dos EUA em Brasília. Shannon articulou a visita de Obama ao Brasil em março de 2011, a viagem de trabalho que Dilma fez a Washington em abril de 2012 e a frustrada visita de 2013. Retornou a Washington no final do ano passado desapontado com a forma como foi tratado na despedida, mas disse a amigos que o lamentável episódio não interferiria na condução das tarefas que lhe cabem na alta hierarquia do Departamento de Estado, uma das quais é orientar as relações dos EUA com o Brasil.

Como Obama, Biden e Kerry deixaram claro em suas mensagens a Dilma, é do interesse dos EUA que o Brasil, a segunda maior economia e democracia do continente, supere a crise em que se meteu. Eles supõem que os sinais irradiados por uma relação mais estreita com os EUA ajudariam o Brasil a retomar o crescimento econômico. Será preciso, no entanto, que boas intenções se traduzam em posturas e iniciativas concretas capazes de gerar confiança mútua, hoje inexistente, e que estas levem a uma agenda substantiva que justifique e lastreie uma aproximação.

Bem conduzido, esse esforço levaria à reprogramação da visita da líder brasileira a Washington, como indicaram o presidente dos EUA, seu vice e a própria Dilma.

Não faltam, no entanto, obstáculos no caminho. Derrotado nas recentes eleições legislativas e limitado no que pode fazer em casa, Obama provavelmente investirá na agenda externa nos dois anos que lhe restam na Casa Branca. Não está claro, porém, se uma relação mais próxima com o Brasil acrescentaria a seu legado. Dilma, por sua vez, estará ainda mais voltada para a frente interna no seu segundo mandato, se conseguir dar viabilidade a seu governo, o que tampouco está claro. Os dois governos terão, pois, de demonstrar um ao outro que têm interesse e capacidade para construir uma agenda de objetivos comuns alcançáveis.

O Planalto descreveu o caminho possível para chegar sem pressa a tal agenda em nota que divulgou sobre o telefonema de Obama. É preciso, informou a Presidência, que os dois governos "trabalhem os mecanismos existentes para definir a agenda para 2015, estabelecendo as bases para a preparação da visita de Estado da presidenta brasileira aos EUA em momento oportuno".

Um primeiro passo foi dado no mês passado com a resolução do contencioso do algodão, que afastou o risco de uma guerra comercial e mostrou que mesmo em momentos adversos há espaço para entendimento quando os dois governos deixam de jogar na retranca e se dedicam à superação dos problemas. Olhando para a frente, trata-se de escolher e sequenciar temas nos quais se possa efetivamente avançar.

Importante que venha a ser no futuro, um acordo de livre-comércio não está na pauta das coisas alcançáveis. Tampouco estão iniciativas de facilitação de viagem que requeiram trocas sistemáticas de informações sensíveis entre os serviços de inteligência dos dois países.

Na lista dos avanços possíveis, Washington inclui um acordo de não bitributação e proteção de investimentos, além de cooperação em iniciativas de promoção em saúde, na qual os dois países têm história, focalizando agora a ameaça do Ebola. Mudança climática, segurança alimentar e os preparativos dos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, são vistas como áreas promissoras. A orientação que Obama dará a seus assessores depois de se reunir com Dilma em Brisbane e a escalação da equipe econômica e do time encarregado das relações internacionais em Brasília indicarão se o diálogo bilateral ganhará densidade ou será, como tem sido, apenas conversa.

*Paulo Sotero é jornalista e diretor do Brazil Institute do Woodrow Wilson International Center for Scholars, em Washington 

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