Reavaliação de risco

Foram apelidados de Ninja. Não os personagens do desenho infantil, mas sim os últimos empréstimos nos EUA. Concedidos àqueles que possivelmente não terão como repagar a dívida - pois não têm renda, emprego ou ativos (na sigla em inglês "no income, no job or assets", ou simplesmente Ninja) -, são, de fato, empréstimos camicase. Sinal de crédito excessivamente farto nos EUA. Símbolo dos excessos recentes no mercado financeiro. Nos últimos tempos, a crise no mercado de hipotecas, o aumento dos juros para todos os tipos de crédito e a queda das bolsas no mundo refletem a correção desses excessos. Qual a extensão dessa correção? Afetará a economia americana (via consumo e investimento)? Qual o impacto sobre o Brasil?Primeiro é necessário entender a natureza dessa correção nos preços do crédito e de ativos (enfim, do preço do risco) nos EUA e no mundo. Num ciclo anterior, em 1998, o ex-secretário do Tesouro americano Bob Rubin disse: "Onde você teve cinco, seis, sete anos de bons resultados, quem concede crédito tende a ficar menos cuidadoso." O resultado foi a crise da Rússia, aumento do custo do crédito (e risco) no mundo e a quebra do megafundo alavancado Long-Term Capital Management (LTCM), que gerou o seu resgate conjunto pelos maiores bancos americanos, sob a coordenação do Fed, o banco central americano. Para revisitar os eventos da época, que se seguiram a um período de fartura excepcional na era Clinton, recomendo a leitura do livro de Roger Lowenstein When Genius Failed.Fartura não tem faltado no ciclo recente. A economia americana cresce a taxas muito elevadas já faz vários anos. O resto do mundo, Europa, Japão, China, Índia e outros países em desenvolvimento também entraram numa fase de crescimento forte. Por exemplo, este ano o FMI revisou o crescimento mundial para 5,2%, uma taxa excepcionalmente alta.A liquidez também tem sido elevada. Atribuo esse fenômeno não somente ao crescimento da renda no mundo, mas à distribuição dos seus recursos. De um lado, um alto déficit em conta corrente nos EUA; do outro, superávits elevados na Ásia (e nas economias emergentes em geral) e nos países petrolíferos. Esses superávits têm sido aplicados nos ativos financeiros no mundo. Muitos desses recursos foram aplicados (ou, posteriormente, realocados) em ativos mais arriscados. Essa liquidez excedente gerou mercados otimistas e ativos que continuamente se valorizaram. No mercado de crédito isso significou juros cada vez mais baixos, para todos os tipos de empréstimos. Em alguns casos, como o mercado de hipotecas, a queda de juros atingiu empréstimos a devedores de menor reputação e capacidade de pagar.Em algum momento a valorização desses ativos teria de sofrer uma reavaliação. O mercado imobiliário americano era o candidato natural a iniciar esse processo, dada a subida contínua dos preços, que alguns consideravam uma bolha (valorização além do justificado pelos fundamentos). De fato, com a elevação dos juros do Fed o preço das casas parou de subir (e começou a cair) e a demanda por elas diminuiu. Com preços de casas menos atrativos, as garantias oferecidas nos empréstimos hipotecários perdem valor e começa a reavaliação do valor dos empréstimos (qual é a chance de esse empréstimo ser pago? Qual é, de verdade, o valor da casa que serve como garantia?).A primeira vítima foi o mercado de hipotecas mais arriscado, denominado subprime. O preço desses empréstimos caiu significativamente e os fundos que os detinham sofreram perdas significativas, causando, em alguns casos, perdas de todo o investimento para seus cotistas. Esse é o caso de dois fundos do banco de investimento Bear Stearns, cujas perdas levaram a dúvidas quanto à liquidez de todo o banco!A ironia é que o Bear Stearns, hoje no centro da turbulência, foi o único grande banco que não participou do salvamento do fundo LTCM, em 1998.A reavaliação de risco não tem ficado restrita a esses empréstimos de menor qualidade. As hipotecas de maior qualidade também perderam valor no mercado.Mais recentemente, os investidores começaram a observar a sua volta para outros ativos que também não tenham sido corretamente avaliados e cujo preço não reflita todo o risco incorrido. A reavaliação do preço de ativos de risco já atingiu a dívida de países emergentes e também a própria dívida de empresas americanas (por exemplo, a Chrysler foi afetada na semana passada).A maior dúvida no momento é se essa reavaliação de risco e o aumento do custo da dívida vão atingir a economia. Na medida em que se acredita que as empresas estão relativamente sólidas, com dinheiro em caixa e menos necessidade de novos empréstimos, o foco da atenção é no consumidor americano. Este sendo o maior endividado do mundo. As dúvidas atuais são: o consumo nos EUA será afetado pelo novo custo dos empréstimos? Haverá impacto no crescimento da economia americana? O Fed vai interferir nesse processo, com receio de ocorrer crise sistêmica?Em suma, após anos de bonança e bons resultados, os investidores tendem a se tornar menos cuidadosos quanto ao risco tomado. O desenvolvimento atual de reavaliação dos preços dos ativos mais arriscados é natural, e até saudável. O mais provável é que o mundo siga seu curso, agora um pouco mais consciente dos riscos. Mas não há garantia de que esse processo será suave, sem solavancos. Há o risco de haver fatalidades - a quebra de uma instituição financeira de médio ou grande porte - e/ou impactos no consumidor americano, levando a uma desaceleração mais forte que a esperada. O mundo todo seria afetado neste caso. O futuro próximo nos dirá o desenrolar dessa nova trama no mercado financeiro internacional. * Ilan Goldfajn, professor de Economia da PUC-Rio, é sócio-diretor da Ciano Investimentos e sócio do Iepe da Casa das Garças. Email: igoldfajn@cianoinvest.com.br

Ilan Goldfajn *, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2007 | 00h00

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