Recaída da economia mundial

Os sinais vitais da economia mundial voltaram a piorar, realimentando o temor de uma nova recessão, com pesado custo para todos os países. Esse desastre quase certamente será evitado, mas a recuperação global deverá ser mais lenta e penosa do que se imaginava, com desemprego elevado por muitos anos e perda de impulso no comércio internacional. As novidades mais preocupantes, agora, vêm dos Estados Unidos e da China. A economia americana estava na dianteira do mundo rico, bem à frente da Europa na reativação, mas começou a perder vigor e a piora do quadro foi reconhecida na semana que passou pelo Federal Reserve (Fed). "O consumo se mantém achatado pelo alto desemprego, pelo modesto crescimento da renda, pela má saúde do mercado habitacional e pelo crédito apertado", segundo a nota distribuída depois da última decisão sobre política monetária.

, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2010 | 00h00

A China se mantém como líder do crescimento mundial, mas dá sinais de arrefecimento depois da expansão, no primeiro semestre, de 11,1% ao ano. Além disso, esperava-se da economia chinesa um novo papel, mais favorável ao crescimento mundial. Seu dinamismo deveria depender mais do mercado interno, movido pelo aumento do consumo e por investimentos na infraestrutura. Seria a contrapartida do ajuste promovido nas economias normalmente deficitárias, como a americana. A nova divisão de papéis funcionou durante algum tempo. As importações chinesas cresceram mais velozmente que as importações durante meses, mas a tendência parece haver mudado.

Em julho as exportações da China, US$ 145,5 bilhões, foram 38,1% maiores que as de um ano antes. As importações, US$ 116,8 bilhões, ficaram 22,7% acima das de julho de 2009. O superávit comercial voltou a crescer e a combinação do novo jogo internacional, proposto pelo Grupo dos 20, parece ter sido esquecida pelo menos por algum tempo.

Da economia americana, a maior do mundo, não se esperava, até o começo do ano, muita ajuda para a recuperação global. Mas esperava-se uma contribuição considerável das economias emergentes, principalmente da chinesa, já promovida a número dois do mundo segundo novas estimativas divulgadas há poucos dias em Pequim.

A primeira surpresa durou alguns meses: houve sinais de reanimação no mercado americano e os Estados Unidos, se continuassem nesse rumo, poderiam injetar algum vigor no resto do mundo. Essa expectativa já está abandonada. A segunda surpresa foi o rápido retorno do comércio exterior da China à velha trajetória de acumulação de superávits. Se não houver uma nova correção de rumo, a ajuda chinesa à economia mundial também será menor do que havia sido no primeiro semestre deste ano.

Na Europa o quadro permanece quase tão ruim quanto era há poucos meses. Bancos da Grécia, de Portugal e da Itália voltaram a tomar empréstimos do Banco Central Europeu (BCE), confirmando dificuldades para operar no mercado. Os testes de estresse realizados com 91 bancos da Europa deram resultados positivos para mais de 80, mas isso parece ter sido insuficiente para restabelecer a confiança.

Outros indicadores da região continuam fracos. Em junho a produção industrial na zona do euro foi 8,2% maior que a de um ano antes, mas 0,1% menor que a do mês anterior. A produção de bens de capital cresceu, mas a de bens de consumo duráveis e a de bens intermediários diminuíram, indicando cautela das famílias. Do primeiro para o segundo trimestre o PIB da área cresceu 1%, mas quase dois terços dessa expansão resultaram do crescimento excepcional da Alemanha, 2,2%. Os demais países continuam derrapando.

Nos 27 países da União Europeia - sendo 16 da zona do euro - a produção da indústria ficou estável em junho. O crescimento do PIB britânico será menor do que se previa, segundo o Banco Central da Inglaterra.

O desemprego permanece elevado em todo o mundo rico. O número de trabalhadores em busca do auxílio-desemprego voltou a subir nos Estados Unidos na primeira semana de agosto.

Como dissemos no início deste editorial, não há desastre à vista. Mas esse quadro só deverá mudar lentamente, nos próximos anos.

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