Recaída na Europa

A União Europeia está de novo mobilizada para salvar três de suas menores e mais endividadas economias - Portugal, Irlanda e Grécia - e manter a integridade da zona do euro. "Tudo está em jogo", disse a primeira-ministra alemã, Angela Merkel. "Se o euro fracassar, a Europa fracassará", acrescentou. As operações de salvamento executadas neste ano, desde o agravamento da situação grega, só produziram um alívio passageiro. Os governos mais expostos à pressão dos mercados anunciaram planos de austeridade, mas nem tudo deu certo e a insegurança voltou. Os Tesouros da Espanha e da Grécia conseguiram na terça-feira vender novos lotes de papéis, mas precisaram oferecer juros mais altos. A procura foi mais que suficiente, porém menor que em leilões anteriores.

, O Estado de S.Paulo

17 Novembro 2010 | 00h00

A nova onda de insegurança é mais um obstáculo à recuperação econômica, já muito lenta na maior parte do bloco. Fala-se novamente em risco de contágio e os financiadores dos governos, já retraídos, podem tornar-se mais cautelosos. A União Europeia é uma das duas maiores potências econômicas do mundo. A outra, os Estados Unidos, também voltou a perder dinamismo, depois de uma reação promissora no começo do ano. A economia global continua a depender do vigor dos emergentes, mas na China estão em estudo medidas para conter a inflação. Também isso afetou os mercados na terça-feira. Se o crescimento chinês for contido, haverá consequências negativas em todo o mundo. Na Coreia, outra importante economia da Ásia, a reação às pressões inflacionárias já resultou num aumento dos juros básicos, de 2,25% para 2,5%.

Os governos da Irlanda e de Portugal têm sido pressionados para aceitar um novo pacote de ajuda financeira, de preferência com participação do Fundo Monetário Internacional (FMI). Sozinhos, dificilmente conseguirão arrumar suas contas e reduzir a dívida pública, na avaliação de analistas privados e funcionários da União Europeia.

O governo grego, segundo informação de fonte credenciada, deixará de cumprir neste ano as metas combinadas com o FMI, incluída a redução do déficit público para 8,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Uma revisão das contas de 2009 mostrou números piores que os estimados anteriormente. O déficit fiscal no ano passado chegou a 15,4% do PIB. O cálculo concluído há poucos meses havia indicado 13,6%. A dívida pública chegou a 126% do PIB no fim de 2009 - não aos 116% estimados na última avaliação. O governo grego já recebeu 30 bilhões de ajuda e em troca adotou uma dura política de austeridade. Pretende receber mais 9 bilhões e para isso precisará continuar impondo medidas impopulares.

Sindicatos e outras organizações têm reagido com greves, manifestações de rua e quebra-quebras às políticas de ajuste de curto e de longo prazos em vários países. Na França, a iniciativa mais audaciosa do governo foi a reforma da previdência, com a elevação da idade mínima para aposentadoria. No Reino Unido, o governo apresentou um programa de austeridade para vários anos. Como já havia prometido uma política de aperto na campanha eleitoral, a resistência foi menos violenta do que na maior parte dos outros países.

Em toda a União Europeia - e não só na zona do euro - há problemas fiscais importantes. A maior parte dos governos terá de realizar duros ajustes em suas contas, cortando gastos e, em alguns casos, aumentando impostos. Um dos problemas será conciliar a arrumação das contas com a manutenção, durante algum tempo, de incentivos à reativação econômica.

Diante desse desafio, as autoridades já teriam muita dor de cabeça, mesmo sem a piora da situação financeira nas pequenas economias, especialmente na Irlanda. Ministros de Finanças da União Europeia continuaram nessa terça-feira a discussão de medidas para ajudar o governo irlandês. Mas o governo da Irlanda continuou resistindo ao novo pacote, como se pudesse dispensar o socorro e, principalmente, os conselhos e condições dos demais governos, dos burocratas da União Europeia e, é claro, do FMI. A ajuda pode ter um custo político, mas certamente menor que o de um agravamento da crise fiscal e bancária.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.