Recessão e contas externas

As contas externas continuam melhorando, mas até essa boa notícia, uma raridade, é para ser comemorada com muita moderação. O superávit comercial continua crescendo, chegou a US$ 8,81 bilhões entre janeiro e setembro e poderá atingir US$ 12 bilhões em 2015. O déficit em conta corrente, no fim do ano, deverá ficar em US$ 65 bilhões e será inteiramente financiado com investimento direto, se os números projetados pelo Banco Central (BC) estiverem certos. Do lado externo, pelo menos, a situação brasileira parece razoavelmente segura, até porque o País continuava com US$ 370,6 bilhões de reservas no fim do mês passado. Numa economia em recessão, com inflação próxima de 10% ao ano e contas públicas em mau estado, um balanço de pagamentos menos esburacado que no ano anterior proporciona alguma segurança. Mas essa melhora resulta, em boa parte, de fatores negativos – o baixo nível de atividade, o desemprego elevado, a perda de poder de consumo, a insegurança dos empresários e a alta do dólar, associada às incertezas quanto à economia nacional.

O Estado de S.Paulo

24 Outubro 2015 | 02h43

Recessão e juros altos foram insuficientes, até agora, para frear a inflação, mas contribuíram pelo menos para reduzir o desequilíbrio nas contas externas. Calculadas pelo critério do BC, as exportações de bens atingiram US$ 143,65 bilhões no ano, até setembro, e as importações, US$ 134,83 bilhões. Parece uma sólida posição de comércio exterior, mas a história real é um pouco menos animadora. A receita foi 17,11% menor que a de um ano antes, enquanto o gasto com produtos estrangeiros ficou 23,09% abaixo do registrado em igual período de 2014. A redução do valor importado ocorreu porque os consumidores demandaram menor volume de bens estrangeiros e os empresários diminuíram as compras de máquinas, equipamentos e materiais destinados à produção.

A desvalorização do real em relação ao dólar teve alguma influência nas importações, tornando mais caros os produtos estrangeiros. Mas o câmbio depreciado tende também, quase sempre, a facilitar as exportações, porque o dólar mais caro barateia os produtos brasileiros para os compradores de fora. Se faltou esse efeito positivo, foi, principalmente, porque as indústrias brasileiras estavam – e muitas ainda estão – despreparadas para aproveitar o estímulo cambial.

A maior parte dessas indústrias vem há anos perdendo poder de competição, por falta de investimentos, estagnação ou perda de produtividade, baixa inovação e crescentes obstáculos impostos pelo ambiente econômico nacional – impostos muito pesados, excesso de burocracia e graves deficiências de infraestrutura. Até para cumprir as obrigações tributárias a empresa brasileira tem dificuldades especiais – mais documentos e mais horas de trabalho para atender aos procedimentos legais.

Além disso, a mera desvalorização da moeda é insuficiente para facilitar as vendas. Quando há muita instabilidade cambial, como tem ocorrido no Brasil, fica especialmente difícil de fazer planos e fixar preços. O problema é ainda mais complicado quando a empresa opera com matérias-primas e componentes importados.

Os mesmos fatores – desemprego, insegurança, perda de renda, crédito mais difícil e dólar mais caro – têm desestimulado as viagens ao exterior. Isso também tem contribuído para a redução do desequilíbrio das contas externas.

Se as projeções do BC estiverem corretas, o saldo comercial chegará a US$ 12 bilhões no fim do ano. Em 2014, houve um déficit de US$ 6,05 bilhões. O saldo em conta corrente – soma das contas comercial, de serviços e de rendas – passará de um déficit de US$ 103,6 bilhões no ano passado para um buraco de US$ 65 bilhões. O investimento direto no País será bem menor que o do ano anterior, quando ficou em US$ 96,89 bilhões, mas dará justinho, segundo a projeção do BC, para cobrir o déficit em conta corrente. O investimento direto, destinado à atividade empresarial, é a forma de financiamento estrangeiro mais segura e, normalmente, mais produtiva.

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