Recuperação de mananciais

Técnicos da Embrapa, da GV Agro e da Escola de Agronomia da Universidade de São Paulo (Esalq) defendem a recomposição de matas ciliares às margens dos rios que alimentam o Sistema Cantareira. Os recursos para isso seriam muito menores do que os bilhões a serem gastos em obras anunciadas pelo governo do Estado para enfrentar a crise hídrica. A vegetação nas margens dos cursos d'água ajuda a preservá-los, reduzindo a sedimentação e fontes difusas de poluição que invadem os leitos. Por isso, estimular proprietários rurais a conservar e restaurar ecossistemas naturais e melhorar a gestão do mecanismo de compensação ambiental são medidas urgentes, conforme os especialistas.

O Estado de S.Paulo

06 Março 2015 | 02h06

Na Bacia Hidrográfica do Cantareira restam apenas 21,5% da vegetação nativa, segundo estudo da Fundação SOS Mata Atlântica, realizado com base no Atlas de Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, que monitora o bioma há 28 anos. Estudo sobre os rios do sistema mostrou que só 23,5% contam com vegetação nativa maior do que um hectare em seu entorno. Em dois terços deles, a mata deu lugar a loteamentos urbanos, pastagens, distritos industriais, agricultura e silvicultura.

As margens dos rios contêm alto teor de matéria orgânica e umidade, elementos importantes para as culturas e a criação de animais. Convencer os produtores e agricultores a preservar as matas ciliares em detrimento da atividade agropecuária é difícil, mas em compensação o governo do Estado pode melhorar a gestão do Pagamento por Serviços Ambientais. O mecanismo estabelece incentivos econômicos àqueles que se dispõem a preservar essa faixa de vegetação para o equilíbrio ambiental e a consequente preservação do manancial.

Há um mês, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente lançou o Programa Mata Ciliar com uma meta ambiciosa de plantar 40 milhões de mudas para recuperar pelo menos 20 mil hectares de cobertura vegetal e, assim, proteger os cursos d'água, inicialmente nas Bacias Hidrográficas Alto Tietê, Paraíba do Sul e Piracicaba-Capivari-Jundiaí, regiões onde vivem mais de 30 milhões de pessoas. Conforme o programa, empresas públicas e privadas, que devem cumprir as obrigações de recomposição florestal exigidas por lei para compensar a supressão de vegetação nativa, poderão escolher os projetos de recuperação cadastrados pela Secretaria que desejam financiar. Muitas deixam de fazer isso com o argumento de que não encontram áreas disponíveis para o plantio ou pelo fato de ser necessário fragmentar a compensação ambiental em terrenos distintos.

O programa foi anunciado após a assinatura de convênio entre a organização ambiental The Nature Conservancy (TNC) e a Secretaria do Meio Ambiente. A TNC compartilhará um mapeamento das áreas críticas para a produção de água nas bacias dos Sistemas Cantareira e Alto Tietê. Seus cientistas afirmam que a recuperação de 3% das áreas desmatadas - equivalentes a 14 mil hectares - seria suficiente para reduzir o assoreamento dos rios e nascentes em até 50%.

Bem conduzido, o programa poderá, em cinco anos, garantir o plantio de mais mudas do que propõem os técnicos da Embrapa. Segundo eles, 30 milhões de mudas em 34 mil hectares, de modo a respeitar a faixa prevista pelo novo Código Florestal, seriam fundamentais para assegurar condições melhores aos reservatórios. As árvores evitariam o ressecamento extremo do solo em épocas de seca e reduziriam as enchentes na estação das chuvas.

A conservação da floresta assegura a qualidade da água e do ar, a geração e renovação do solo, a polinização de culturas e da vegetação natural. Especialistas garantem que 25% das matas se regenerariam sozinhas se os fazendeiros cercassem o gado e o avanço da mancha urbana fosse freado.

Esse é um esforço que vale a pena. Como constatou o estudo global Planos de Água para as Cidades, produzido pela TNC, São Paulo é uma das cinco metrópoles, entre as cem maiores do mundo, que concentrariam o maior retorno financeiro sobre o investimento na recuperação da mata ciliar.

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