Recuperando-se do desastre

É notável a deterioração observada a partir de 2014, ano em que Dilma foi reeleita para um mandato que dois anos depois seria cassado e no qual se iniciava a profunda crise econômica da qual o País sai lentamente

O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2018 | 03h00

A evolução do mercado de trabalho no final do ano passado, com o aumento do nível de ocupação e da massa de rendimentos, entre outros dados, confirma e fortalece a recuperação observada há alguns meses. Mas os efeitos desastrosos da política econômica do governo Dilma Rousseff sobre a vida dos brasileiros foram de tal ordem que, mesmo amainados por bons resultados como esses, ainda persistirão por um bom tempo. Ao divulgar os números de sua Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua, a Pnad Contínua, relativa ao último trimestre do ano passado, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentou também uma edição especial de sua série Indicadores IBGE na qual avalia a evolução do mercado de trabalho desde 2012. É notável a deterioração observada a partir de 2014, ano em que Dilma foi reeleita para um mandato que dois anos depois seria cassado e no qual se iniciava a profunda crise econômica da qual o País sai lentamente.

Diversos dados relativos ao final do ano passado mostram melhora no mercado de trabalho. A taxa de desemprego ficou em 11,8% no trimestre encerrado em dezembro, 0,2 ponto porcentual menos do que a observada um ano antes. A renda real média do trabalho alcançou R$ 2.154, 1,6% maior do que a do último trimestre de 2016. A massa de renda real habitual somou R$ 193,4 bilhões. No período de um ano, R$ 6,630 bilhões adicionais passaram a circular na economia.

Apesar da melhora de diversos indicadores, outros mostram estagnação ou deterioração do mercado. Boa parte da recuperação do emprego se deveu ao mercado informal, no qual as garantias, a renda e os benefícios são piores do que os oferecidos pelo mercado formal. Este encolheu, pois o número de trabalhadores com carteira assinada (33,3 milhões de pessoas) é o mais baixo desde 2012, quando o IBGE passou a elaborar a Pnad Contínua. No período de um ano, o País perdeu 685 mil vagas com carteira assinada.

A existência de 12,3 milhões de pessoas sem ocupação mostra que as mudanças são insuficientes para aliviar o grave drama social do desemprego.

Embora reconheça que o aumento da ocupação foi expressivo no último trimestre de 2017 - fato que atribuiu a fatores sazonais, como a contratação de empregados temporários pelo comércio no fim do ano -, o coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, Cimar Azevedo, ressalva que, do ponto de vista da qualidade, o quadro continua a preocupar. É crescente o número de trabalhadores sem carteira, aumenta o trabalho por conta própria e cresce também o número de trabalhadores domésticos. “O aumento no emprego doméstico não é bom para país nenhum”, diz Azevedo, pois o que gera esse fenômeno é a falta de oportunidades.

A comparação de dados mais recentes com os do final de 2014 - quando a Pnad Contínua registrou os melhores números - torna mais evidentes as dificuldades. Em três anos, o contingente de desocupados praticamente dobrou, passando de 6,7 milhões para 13,2 milhões. Ou seja, depois do primeiro mandato de Dilma Rousseff, 6,5 milhões de brasileiros perderam o emprego.

A perda de qualidade do mercado apontada pelo IBGE em 2017 é resultado de um processo que começou junto com o segundo mandato de Dilma Rousseff. Em 2014, havia 36,6 milhões de trabalhadores com carteira assinada. Nos três anos seguintes, o mercado de trabalho formal perdeu 3,3 milhões de trabalhadores. A indústria, onde se concentram os melhores empregos, perdeu 1,52 milhão de trabalhadores.

No período considerado, a reversão da tendência de queda do trabalho informal, observada desde a primeira Pnad Contínua, foi interrompida e passou a crescer proporcionalmente o número de trabalhadores sem registro, de empregados em serviços domésticos, de empregadores e de trabalhadores por conta própria. A renda real média praticamente não se alterou entre 2014 e 2017, mas a massa de rendimento médio real diminuiu 0,9%, o que explica a retração do consumo no período.

 

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