Rede de mentiras

Mesmo para os padrões ordinários da baixa política, da qual é lídimo representante, Eduardo Cunha está passando dos limites. A cada dia, o presidente da Câmara se vê obrigado a criar mirabolantes versões para justificar a dinheirama que apareceu em seu nome na Suíça, pois as que apresentou acabaram desmentidas por documentos – e tudo isso para que, logo em seguida, uma outra intrujice seja desmascarada, de novo, pelos investigadores. Até quando Cunha abusará da paciência – e da inteligência – do País?

O Estado de S.Paulo

14 Novembro 2015 | 02h55

Vale a pena recapitular a sinuosa série de desculpas esfarrapadas e histórias fabulosas que o deputado peemedebista elaborou até aqui. Primeiro, em março, Cunha disse à CPI da Petrobrás que não dispunha de conta no exterior. Declarou ele textualmente: “Não tenho qualquer tipo de conta em qualquer lugar que não seja a conta que está declarada no meu Imposto de Renda”. Na sua declaração de renda, entregue à Justiça Eleitoral para a campanha do ano passado, constava apenas uma conta, no banco Itaú, com saldo de R$ 21.652,39.

Mas eis que, em setembro, um mês depois de Cunha ter sido denunciado pela Procuradoria-Geral da República sob a acusação de ter recebido US$ 5 milhões do propinoduto da Petrobrás, o Ministério Público da Suíça enviou ao Brasil documentos que comprovavam a existência de contas cujo favorecido é o deputado.

Pilhado na mentira, Cunha passou então a sustentar a versão de que as contas não eram contas, e sim “trustes” – quando os recursos são confiados a um administrador. Assim, segundo o deputado, ele não seria titular das contas e não teria nenhum poder sobre elas, sendo apenas “usufrutuário em vida”.

Se Cunha é apenas “usufrutuário”, então não é dono do dinheiro – razão pela qual, segundo ele, não havia necessidade de declará-lo à Receita Federal. No entanto, o deputado já disse que os recursos depositados no tal “truste” resultam de seus negócios como vendedor de carne enlatada para a África, realizados, segundo ele, antes de se tornar parlamentar – versão sustentada para desmentir a acusação de que aquele dinheiro é fruto de corrupção. De um jeito ou de outro, são necessárias doses cavalares de boa-fé para acreditar em qualquer dessas explicações.

Os investigadores, no entanto, trabalham apenas com documentos – e estes sugerem que Cunha não está dizendo a verdade. Entre os papéis enviados pelo Ministério Público da Suíça e que estão no processo aberto contra Cunha no Supremo Tribunal Federal consta uma procuração, de 2008, que dá ao deputado o poder de usar o dinheiro de uma das contas na Suíça para fazer aplicações financeiras e investimentos. Os extratos das contas indicam que houve movimentação duas vezes em 2014, segundo a Folha de S.Paulo. Parte do dinheiro foi aplicada em ações da Petrobrás e parte foi depositada em Cingapura em nome de uma empresa ligada a Cunha.

A conta em questão é aquela em que o lobista João Henriques fez um depósito de 1,3 milhão de francos suíços a título, segundo ele, de comissão por um contrato fechado pela Petrobrás em Benin. Cunha jurava desconhecer a existência desse dinheiro e o atribuiu ao pagamento de um empréstimo que ele fizera ao deputado Fernando Diniz (PMDB-MG) e que ele julgava que jamais receberia de volta, pois Diniz morreu.

Depois de dar dezenas de entrevistas para tentar explicar cada um dos numerosos furos de sua defesa, nas quais não conseguiu convencer nem mesmo alguns de seus aliados no Congresso, Cunha mandou dizer que agora só falará na Justiça, por meio de seus advogados, e no Conselho de Ética da Câmara, que pode cassar seu mandato por ter mentido à CPI da Petrobrás. Pode até ser que, com suas patranhas, ele consiga convencer uns e outros nesses foros, mas o País, a esta altura, já sabe bem o quanto vale sua palavra.

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