Reféns de agitadores políticos

Metroviários de São Paulo voltaram a converter a população em refém de seus interesses

O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2018 | 03h11

Ao fechar várias estações, suspender inteiramente o funcionamento de uma linha e paralisar trechos importantes da maioria das demais linhas no decorrer do dia de ontem, os metroviários de São Paulo – movidos por uma noção precária das responsabilidades implícitas em suas funções profissionais e agindo como meros agitadores políticos – voltaram a converter a população em refém de seus interesses. Diariamente, 4 milhões de pessoas utilizam o metrô para trabalhar ou ir para a escola. Apenas a Linha 4 (Amarela), que é administrada pela iniciativa privada, funcionou normalmente.

Ao contrário de paralisações anteriores, que foram deflagradas para pressionar o governo estadual a atender a reivindicações salariais da categoria, a greve parcial de ontem teve motivação exclusivamente política. Alegando que “transporte não é mercadoria” e acusando o governador Geraldo Alckmin de “entregar tudo para os grandes grupos econômicos envolvidos em corrupção”, os metroviários fizeram a greve para protestar contra o leilão de concessão à iniciativa privada das Linhas 5 (Lilás) e 17 (Ouro), previsto para hoje, e contra o projeto da Companhia do Metropolitano de São Paulo de terceirizar as bilheterias. Em carta aberta à população, os dirigentes do Sindicato dos Metroviários afirmaram que uma recente pesquisa divulgada pelo Datafolha mostrou que 70% da população é contra a privatização e, portanto, o governo estadual deveria “respeitar a vontade do povo”. Também disseram que, além de reduzir o número de metroviários, aumentar as tarifas para gerar lucros para os concessionários e piorar o atendimento de pessoas com deficiência, a privatização do Metrô prejudicará os conselhos e órgãos da sociedade que propõem ações destinadas a ajudar o transporte coletivo.

Nesse rol de argumentos inconsistentes para tentar justificar uma greve e irresponsável, os metroviários incluíram ainda críticas à proposta de extinção da função de cobrador nos ônibus de São Paulo, defendida pelo prefeito João Doria, e ao projeto de reforma da Previdência enviado ao Congresso pelo presidente Michel Temer. Evidenciando o caráter exclusivamente político da greve, no início de um ano em que haverá eleições, os metroviários tiveram o apoio público do PT e de três pequenos partidos de esquerda (PSOL, PCdoB e PSTU), de centrais sindicais (como a CUT e a Conlutas), do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), da União da Juventude Socialista, da União Nacional de Mulheres, do Movimento Mulheres em Luta, da Pastoral Operária Metropolitana, do Quilombo Raça e Classe, da Fraternidade Cristã de Pessoas com Deficiência, da União Estadual dos Estudantes Secundaristas e da Assembleia Nacional de Estudantes - Livre, entre outras entidades.

O transtorno causado pela paralisia parcial do Metrô recoloca em evidência um tema conhecido, mas sempre adiado: a necessidade de regulamentar o exercício do direito de greve no setor de serviços essenciais, inclusive os prestados pela administração pública indireta, por meio de empresas estatais e sociedades anônimas de economia mista. É esse o caso do Metrô, empresa vinculada à Secretaria Estadual de Transportes Metropolitanos de São Paulo. A legislação sobre greve nos setores essenciais é sabidamente defasada e ineficaz. Ainda que estabeleça alguns limites para a suspensão do trabalho em setores essenciais, ela jamais foi capaz de coibir abusos, como o próprio Supremo Tribunal Federal já reconheceu há alguns anos. Isso explica por que empregados de empresas como o Metrô, aproveitando-se justamente do caráter essencial dos serviços que prestam, promovem atos de protesto irresponsáveis, como o de ontem.

É por esse motivo que o governo estadual e a direção da empresa têm de tomar medidas severas para punir os metroviários de São Paulo, de modo a fazê-los pensar duas vezes antes de cruzarem os braços com objetivos meramente políticos, em prejuízo da população.

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