Reflexões sobre a morte de um ditador

Como alguém pode romancear a biografia de Fidel e olhar seu legado positivamente?

*Fábio de Biazzi, O Estado de S. Paulo

07 Dezembro 2016 | 03h03

O único impacto prático da morte de Fidel Castro foi que finalmente puderam ser publicados todos os obituários a ele dedicados e escritos há décadas. Admiradores e detratores do cubano podem agora se dedicar à preparação do obituário do irmão Raúl, presidente de Cuba desde 2008. Incerta é apenas a morte do regime instaurado pelos dois e pelo impiedoso Che Guevara em 1959, que desde então condenou os cubanos à estagnação social e econômica.

Em 2012 a The Economist destacou os movimentos de reforma empreendidos por Raúl Castro para dinamizar uma economia que tem levado os cubanos a uma vida de restrições e nem mais sustenta seus outrora afamados níveis de educação básica e serviços sociais. A revista afirma que ele “parece estar profundamente consciente de que o comunismo cubano está vivendo seus estertores”. No entanto, não se cogita se as reformas vão permitir alguma liberdade de expressão, maiores oportunidades econômicas ou, ainda, se haveria grandes mudanças na condução da política. Mesmo que não seja algum outro Castro, é muito provável que o sucessor de Raúl saia de sua atual camarilha.

As sucessões são sempre momentos muito delicados para regimes totalitários, pois dependem da transferência do apoio militar, político, econômico e popular de um tirano instalado por décadas no poder para um filho, parente ou apadrinhado. Os caminhos e segredos dos laços de confiança e outros interesses de poder – particularmente a chave do cofre – precisam ser transmitidos a tempo e em detalhes, sob o risco de o “bastão” cair na passagem. Os mecanismos de repressão e cooptação têm de estar mais aguçados e ativos que nunca, sem falar da máquina de propaganda. Para garantir seu sucessor um ditador precisa assegurar-se de que o poder seja transferido em cada uma das três formas destacadas pelo economista John Kenneth Galbraith: coerção, recompensa e condicionamento.

Apesar de não sabermos o que será de Cuba nos próximos anos e de sua relativa insignificância no cenário mundial, temos certamente o que aprender com sua história sob o domínio dos Castros, infelizmente muito menos por inovações e muito mais pela repetição de um padrão conhecido e há muito denunciado. Como outros líderes farsantes e totalitários, Fidel assumiu o poder carregando expectativas e sonhos da população para depois manobrar indefinidamente com o personalismo, as mentiras, a destruição das instituições – e sua substituição pelo aparato de repressão – e a divisão da população entre os fiéis e os “traidores”, que morreram aos milhares.

Não resta dúvida sobre a tirania do regime liderado por Fidel. São inquestionáveis as dezenas de milhares de vidas ceifadas em nome da “Cuba libre”, executadas ou afogadas tentando alcançar a costa americana. Por conta desses números, el comandante en jefe tem garantido seu lugar na história ao lado de outros tiranos como o camarada Stalin, o Führer, Il Duce, O Grande Timoneiro e o caçula da turma, o lunático Supremo Líder Kim Jong-un. Não foi o maior déspota do mundo, mas certamente detém o primeiro lugar nas Américas, como bem lembrou o brilhante José Nêumanne em seu blog no site do Estadão.

Cabe neste momento fazer algumas perguntas: como parcos avanços sociais e o nivelamento da população numa subsistência precária podem justificar a morte de dezenas de milhares de pessoas e a manutenção do povo acuado e aterrorizado em seu próprio país? Como alguém pode romancear a biografia de Fidel e olhar seu legado positivamente? O que move muitos políticos, cientistas sociais, jornalistas e outros “intelectuais” brasileiros a fazer reverência a alguém que transformou seu país numa prisão (para usar a imagem cunhada por Roger Cohen, colunista do New York Times)?

Seria estatisticamente improvável que essa admiração viesse de alguma forma de sociopatia – cuja principal característica é a incapacidade de sentir empatia e se pôr no lugar dos cubanos mortos e de sua família. Se é assim – e sendo, então, os nossos fãs do máximo líder psicologicamente sãos –, o que passaria na cabeça deles? A melhor hipótese que conheço e parece fazer sentido nesse caso foi desenvolvida pelo matemático e filósofo Bertrand Russell. Segundo ele, aqueles que se arvoram a analisar e julgar estruturas sociais frequentemente incorrem em duas falácias: a do observador externo e a do aristocrata.

A falácia do observador externo decorre de se avaliar uma estrutura social a partir de quão agradável parece ser a contemplação de seu funcionamento. Nela se constrói “o hábito de julgar um Estado pela teoria, e não como um ambiente em que se vive”. Assim, a ideia de igualdade e o ideal da revolução se sobreporiam à visão da vida miserável, da opressão e do medo de ser delatado como traidor. Talvez seja compreensível cometer esse tipo de engano a 6 mil km de distância, ainda mais se o observador estiver à beira de uma piscina ou à sombra de um emprego público.

Por sua vez, a falácia do aristocrata “consiste em se julgar uma sociedade pelo tipo de vida que ela proporciona a certa minoria privilegiada”. Nossos admiradores do comandante muito provavelmente sempre se imaginaram na construção do socialismo ombro a ombro com Fidel ou assumindo um papel importante em sua corte, nunca como cidadãos comuns. Também parece fácil se iludir e recair nessa segunda falácia se sua experiência com Cuba for limitada a eventuais visitas a Havana regadas a privilégios exclusivos dos apaniguados e simpatizantes, preferencialmente bem longe de seu povo.

Finalizando, Russell observa que uma boa sociedade deve ser avaliada por dois critérios: o bem-estar de seus cidadãos e a capacidade de evoluir com o tempo. Em ambos, não bastassem todas as mortes contabilizadas, Fidel e sua revolução fracassaram miseravelmente.

Como alguém pode romancear a biografia de Fidel e olhar seu Como alguém pode romancear a biografia de Fidel e olhar seu legado positivamente? 

legado positivamente?

*Engenheiro de produção, doutor em engenharia pela USP, diretor executivo e consultor de gestão, é professor de liderança e comportamento organizacional do MBA executivo do Insper 

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