Reforma perigosa na Argentina

Um país mal governado sempre pode piorar, como tem provado e pode provar mais uma vez a presidente Cristina Kirchner com a recém-anunciada reforma de seu Ministério. Analistas econômicos receberam com sinais de preocupação a escolha do economista Axel Kicillof, secretário de Política Econômica, para chefiar o Ministério da Economia no lugar de Hernán Lorenzino. O novo ministro é conhecido defensor da intervenção estatal nas empresas e nos mercados e partidário do câmbio múltiplo. Consultores independentes também receberam com reservas a nomeação do presidente do Banco de la Nación, Juan Carlos Fábrega, para substituir Mercedes Marcó del Pont no comando do já enfraquecido e um tanto desmoralizado Banco Central. Se uma parte dos maus presságios desses economistas se confirmar, novos erros deverão complicar a situação econômica argentina, já difícil. Uma parcela da conta poderá ficar para o Brasil, já prejudicado, há vários anos, pelo protecionismo de seu maior parceiro sul-americano e indisfarçável emperramento do Mercosul.

O Estado de S.Paulo

20 Novembro 2013 | 02h12

Tão preocupante quanto a nomeação de Kicillof para o Ministério da Economia é a manutenção do secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, principal articulador do controle de preços, da manipulação de índices de inflação. É também o responsável pelo protecionismo comercial, uma política praticada tanto por medidas abertas quanto por pressões e ameaças nunca declaradas oficialmente, mas denunciadas com frequência por empresários de vários setores.

Essa política tem sido facilitada pela atitude das autoridades brasileiras, propensas, há vários anos, a aceitar desaforos e imposições de governos da região ideologicamente aparentados. Em algumas ocasiões, essas autoridades foram além da mera aceitação. Justificaram e apoiaram esses desaforos, como no caso da invasão armada de instalações da Petrobrás na Bolívia, e também quando aconselharam industriais brasileiros a aceitar e "negociar" as barreiras comerciais argentinas.

Mesmo como estratégia de apoio a vizinhos em dificuldades esse tipo de política nunca poderia dar certo. O apoio jamais poderia ser mais que temporário e condicional. Além disso, o governo petista sempre foi obviamente movido por outras considerações - uma afinidade ideológica com o autoritarismo misturada com a ilusão de uma liderança regional sempre desmentida pelos fatos.

O apoio do governo brasileiro aos desmandos praticados em países vizinhos nunca foi calibrado por uma avaliação crítica e minimamente sensata. O intervencionismo kirchnerista sempre se traduziu em medidas toscas, demagógicas e imediatistas e nunca em políticas de longo alcance. O resultado geral só poderia ser o agravamento de uma situação econômica já complicada.

Sem investimento e sem modernização, a maior parte da indústria argentina continuou pouco produtiva e com escasso poder de competição. A proteção comercial garantida pela política dos Kirchners jamais foi condicionada, de fato, à busca de maior eficiência. Isso emperrou tanto o funcionamento interno do Mercosul quanto a diplomacia conjunta. Sem surpresa, o governo argentino continua entravando a já demorada e complicada negociação de um acordo de livre-comércio com a União Europeia.

Anos de intervencionismo inepto e primário minaram os fundamentos da economia. As reservas cambiais diminuíram de US$ 52 bilhões em janeiro de 2012 para os atuais US$ 32,3 bilhões. Uma reforma nas regras do Banco Central ampliou as possibilidades de uso de reservas pelo Tesouro. A reforma ocorreu na gestão da economista Mercedes Marcó del Pont, disposta a apoiar os desmandos da presidente Cristina Kirchner, mas contrária à ideia, defendida por Kicillof, de múltiplas taxas de câmbio.

A mudança ministerial, segundo as primeiras avaliações, dará força à presidente para um intervencionismo mais amplo e mais perigoso. Se essas avaliações estiverem certas, vai ficar mais dura a disputa entre os governos argentino e venezuelano pela taça do maior acúmulo de erros econômicos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.