Relações de força

O aforismo que vaticina a política como a "arte do possível" é de conhecimento generalizado e tem uma história secular. Faz parte do arsenal discursivo para justificar ações, orientações e reorientações políticas. É frequentemente usado visando a garantir apoio às opções feitas, mas não integralmente previstas, no exercício de tão nobre arte, sempre condicionada por relações de força historicamente determinadas.

ALBERTO AGGIO, O Estado de S.Paulo

14 Janeiro 2015 | 02h04

Em registro positivo, o "possibilismo" justifica-se pela necessidade imperiosa do realismo em política. Pelo viés negativo, o excesso transforma-o num pragmatismo exacerbado ao ferir de morte os mais legitimados parâmetros éticos, conspurcando a propensão ao realismo.

A juventude do final da década de 1960 bradou "peça sempre o impossível", fazendo nascer uma "nova subjetividade política" no Ocidente. Apesar do avanço que isso representou, do seu ventre nasceu uma cultura política de rechaço e rebeldia que, com o passar do tempo e somada a outras mais radicalizadas, fertilizaria o antagonismo ao "possibilismo", alimentando muitas vezes o irrealismo político. Submetida ao fogo cerrado do existencialismo, do marxismo e até do pós-modernismo, a política como "arte do possível" viu crescer contra si uma injustificada desconfiança.

O "possibilismo" é inerente a toda estratégia reformista e, no campo da esquerda, sua adoção é invariavelmente admitida como necessária apenas a partir do momento em que se alcança o poder. A partir dessa nova situação, a retórica do discurso ex parte popoli cede lugar ao discurso ex parte principis. O embate eleitoral, por natureza, configura-se como uma manifestação concentrada do primeiro momento, enquanto a estruturação da ação governativa ocupa o centro do segundo. Assim, faz parte da "arte do possível" estabelecer uma sintonia entre os dois tempos e discursos, visando a garantir credibilidade ao ator governante.

Qualquer bom governo buscaria obter essas condições, desde seu início. Entretanto, não é o que parece ocorrer com o governo brasileiro que acabou de tomar posse, depois de uma reeleição apertada. Observa-se em sua composição uma clara dissintonia, não apenas discursiva, entre seus membros e na hierarquia de comando. Além do descompasso com o discurso de campanha, o novo governo não conseguiu superar o passivo que carrega em relação aos processos de corrupção na Petrobrás, de consequências políticas ainda imprevisíveis, nos quais estão implicados técnicos e políticos da sua base de apoio. O que tem sido chamado de "estelionato eleitoral" no tocante ao programa econômico e gerencial, grave em si mesmo, se torna, nesta situação, um problema menor. Ao lançar o slogan "Brasil, pátria educadora", sem que nada de concreto fosse apresentado, fica a sensação de que o enfoque de marketing ainda predomina diante de verdadeiros projetos estratégicos. Tudo está a indicar uma forte deriva para o terreno da degradação política que se desdobra perigosamente para o conjunto da população.

Um arguto observador da cena brasileira, com muita propriedade, apontou para a "confusão" reinante que brota desse tipo de política. Em consequência, fica difícil examinar o novo governo do PT num plano mais elevado porque ambos parecem prisioneiros de um virtuosismo mafioso, ainda incólume, que visa a empastelar os termos e pressupostos de uma arte que deveria abrir-se à participação ativa de milhões. A menção feita por Dilma Rousseff no discurso de posse a um dito apócrifo, confirmando a sua visão de que "o impossível se faz já", só pode ser suportada com o beneplácito concedido a uma quase septuagenária que ainda vive intimamente os devaneios de sua juventude rebelde. Avaliado por esses primeiros dias de governo, o desconcerto é de tão grande monta que não há como não retornar ao ponto zero da "ciência" da política para, em seguida, sugerir alguma inteligibilidade.

Seu princípio básico está no fato de que o ator necessita, além do conhecimento de si mesmo, proceder ao desvendamento das relações de força. Será de imensa utilidade, como anotou Gramsci, inspirando-se no Marx do Prefácio de 1859, se o ator, de saída, levar em consideração dois dos seus fundamentos históricos. O primeiro afirma que nenhuma sociedade se coloca tarefas para as quais ainda não existam condições necessárias e suficientes para solucioná-las ou que estejam em via de aparecer e se desenvolver; e o segundo enfatiza que nenhuma sociedade se dissolve ou pode ser substituída antes de ter desenvolvido todas as formas de vida implícitas em suas relações. Esses dois fundamentos condicionam e determinam o desenho do realismo, bem como sua plena efetivação.

Eis o ponto de partida para uma "grande política" de orientação clara à ação governante, deslocando tanto a convicção megalômana quanto a inútil retórica revolucionarista, mas também a desorientação completa de uma "esquerda" sem nome e sem rumo. Por desconhecimento ou má-fé, muitos intelectuais e políticos querem vincular Gramsci ao PT, uma conexão desprovida de sentido, dentre outras razões, porque Gramsci pensava a política como "hegemonia civil", e não como hegemonia de uma classe e menos ainda de um "governo dos trabalhadores".

Pensar a política de maneira diversa pode nos ajudar a sair da "confusão". As relações de força do nosso tempo estabelecem a democracia como um corolário irrefutável no seu primeiro termo e, no segundo, um capitalismo potente, que tem demonstrado capacidade de superar suas crises, mas necessita de regulações incontornáveis. Um quadro de relações de força historicamente determinadas por um mundo multipolar, interdependente e globalizado, eivado de conflitos e ameaças, que pede cada vez mais realismo na política e menos fabulações versadas no impossível.

*Alberto Aggio é professor titular de história da Unesp 

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