Relações internacionais e o papel dos empresários

Esperemos que, nesse processo de mudanças pós-eleições, possamos ter uma nova postura

ROBERTO TEIXEIRA DA COSTA*, O Estado de S.Paulo

10 Dezembro 2018 | 03h00

Nos últimos 30 anos venho me dedicando à temática da política externa e à participação empresarial. Por meio do Ceal, do Cebri, do Foro Iberoamerica, do Gacint, ligado ao IRI/USP, e também do Interamerican Dialogue, de Washington, tive oportunidade de participar proximamente à nossa atuação internacional e à contribuição do setor privado. O sentimento que adquiri é que nossa projeção no cenário internacional não mostra compatibilidade com a dimensão do País, seu mercado interno, sua população acima de 200 milhões de pessoas e sua projeção no contexto da América Latina, mais especificamente no Mercosul.

Estou mergulhado num estudo sobre a internacionalização das empresas brasileiras e sua interface com os empresários privados. Tenho escrito a respeito e participado de diversos eventos locais e internacionais que me permitiram formar uma opinião sobre esse relevante tema. Meus primeiros artigos datam de 2005 e hoje devo reconhecer que desde então não constatei mudanças importantes do que anotara no passado. Nossa atitude em relação ao envolvimento no cenário internacional é, no mínimo, tímida.

Percebo existirem alguns pontos que estão presentes nos diferentes diálogos que mantive com diferentes públicos e também em resposta ao questionário que encaminhei a diversos empresários e formadores de opinião, no que toca à nossa inserção nas relações internacionais. O distanciamento dos empresários e formadores de opinião referente à nossa participação nas relações externas é notório, seja no aspecto institucional, com interesse na política externa, ou como vetor na comercialização de produtos e serviços. Uma constante ligada aos comentários que anotei é o tamanho do mercado interno. Também registrei que, num país com a dimensão continental do nosso, não é exceção privilegiar o mercado interno, como é o caso dos EUA. No entanto, a China, em sua nova política de crescimento, está buscando mais o mercado interno do que o externo, para favorecer a manutenção de seu crescimento. No nosso caso, creio que não temos essa opção, temos de atacar os dois mercados. Foi citado também com frequência o custo Brasil, a excessiva burocratização no comércio exterior, a falta de convergência entre os setores público e privado, a inexistência de acordos que evitem bitributação, a falta de maior suporte para presença internacional de entes governamentais, a menor presença do Itamaraty no diálogo público-privado, enfim, a falta de cultura integracionista com o mundo desenvolvido. Esse serão temas que aprofundarei nessa pesquisa.

Como aperitivo, reproduzo alguns pontos que escrevi em 2005 e chamei de Decálogo Empresarial.

1) Domínio de línguas estrangeiras, principalmente inglês.

2) Cursos universitários, ou mesmo profissionalizantes, devem dedicar espaço cada vez maior a questões relativas ao comércio internacional e à nossa inserção nas discussões sobre política externa. Deve haver um estímulo para que as empresas abram oportunidades para os recém-formados.

3) As empresas devem continuar fazendo um grande esforço na área de qualidade e custos, para serem internacionalmente competitivas. A localização do nosso país nos obriga a ganhos de produtividade que possam minorar o distanciamento dos grandes mercados.

4) Os conselhos das empresas devem demonstrar interesse pela área externa. Sem isso dificilmente a empresa terá forte presença no exterior. No mundo globalizado não há como concentrar-se na proteção do mercado interno. As empresas multinacionais aqui instaladas devem olhar não somente para nosso mercado interno, mas nos ajudar no esforço exportador, inclusive com produtos de maior valor agregado, ampliando assim nossa pauta.

5) As empresas com potencial exportador precisam continuar investindo na formação de técnicos versados em assuntos referentes às relações internacionais. Quando nos defrontamos em reuniões com profissionais de empresas estrangeiras que operam no setor, é transparente a qualidade do seu conhecimento e seu treino negocial. Programas de treinamento poderiam ter o apoio de instituições educacionais, como a Fundação Dom Cabral, e também do BNDES e/ou Apex.

6) A presença em reuniões e foros internacionais é obrigatória. Sem esse comparecimento dificilmente o principal executivo sentirá o ambiente externo e estabelecerá as relações importantes para suas atividades. Nas reuniões de que participo, os principais executivos de empresas multinacionais marcam presença sempre acompanhados de excelentes assessorias. Devemos ser os embaixadores do setor privado no cenário internacional.

7) É fundamental ter uma agenda comum e postulante. Reuniões preparatórias são fundamentais para o acerto de posições. Devemos evitar sentar-nos à mesa sem uma posição definida. Deve ser estimulada a troca de experiências entre as empresas que já foram para o exterior, bem como com as que estejam considerando tal possibilidade.

8) As entidades de classe precisam se equipar com o material informativo e humano capaz de nos colocar em nível compatível com os nossos congêneres internacionais.

9) É importante entender a transcendência dos acordos de livre-comércio e da união aduaneira, reforçando assim a chamada geopolítica continental.

10) Na nova economia mundial é fundamental buscar uma cooperação com todas as autoridades envolvidas na área internacional. Não adianta só ficar criticando. É mister buscar uma colaboração construtiva e dar as respostas quando solicitadas em tempo hábil e saber o que queremos e ter uma postura mais ofensiva.

Esperemos que, nesse processo de mudanças que estamos vivendo após as eleições de outubro, possamos ter uma nova postura do nosso país no contexto internacional.

* ROBERTO TEIXEIRA DA COSTA É MEMBRO DO GACINT E UM DOS FUNDADORES DO CONSELHO EMPRESARIAL DA AMÉRICA LATINA (CEAL) 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.