Relações promíscuas

Três semanas depois que tropas do Exército e da Polícia Militar restabeleceram a autoridade do poder público em vários morros e favelas do Rio de Janeiro, a Polícia Civil realizou outra operação muito bem planejada em Duque de Caxias, prendendo 25 acusados de fazer parte da mais antiga milícia da região. O grupo vinha atuando desde 2007 e é acusado de ter cometido mais de 50 assassinatos. As investigações começaram a ser feitas há seis meses pelo setor de inteligência da Secretaria da Segurança Pública e os integrantes da quadrilha foram identificados por interceptações telefônicas. Com base nas escutas, foram expedidos 34 mandados de prisão e 51 mandados de busca e apreensão.

, O Estado de S.Paulo

24 Dezembro 2010 | 00h00

A nova ofensiva contra o crime organizado, promovida desta vez no principal município da Baixada Fluminense, mostra como o narcotráfico e as milícias - que são integradas por policiais aposentados, integrantes do Corpo de Bombeiros e servidores públicos de escalões inferiores - consistem em verso e reverso de uma mesma moeda. Os milicianos são tão criminosos quanto os traficantes de drogas e só prosperam quando contam com a cumplicidade de autoridades, principalmente as policiais.

Além de praticar os mesmos delitos cometidos pelo crime organizado, como homicídios, exploração de máquinas caça-níqueis, extorsão, venda de gás de cozinha e exploração de TV a cabo e internet clandestinas, faturando cerca de R$ 300 mil por mês, a milícia presa em Duque de Caxias estava envolvida com o comércio ilegal de armas e munição. As escutas telefônicas revelaram que entre os clientes da quadrilha estavam traficantes de favelas do Complexo do Alemão, que se encontram ocupadas por Unidades de Polícia Pacificadora desde 28 de novembro.

O surgimento das milícias no Rio de Janeiro, há alguns anos, chegou a ser recebido com simpatia nas comunidades mais pobres dos morros e favelas cariocas, cujos habitantes as viram - ingenuamente - como forças auxiliares no combate ao narcotráfico. Os especialistas em violência urbana, no entanto, desde o início chamaram a atenção para o poder corruptor dos milicianos.

Sociólogos como Luís Eduardo Soares, Rubens Cesar Fernandes, Michel Misse e Gláucio Ary Dillon Soares lembraram que as milícias não apenas aumentariam a promiscuidade entre poder público e o submundo do crime - fenômeno que começou com a expansão do jogo do bicho e o progressivo envolvimento de seus líderes com escolas de samba, a partir da década de 1970 -, como também poderiam infiltrar-se nas atividades político-partidárias municipais e estaduais - a exemplo do que ocorreu na Itália, com a Máfia.

A operação policial realizada em Duque de Caxias revelou que os especialistas estavam certos. Dos 25 milicianos que tiveram a prisão decretada por ordem da Justiça, quase todos trabalhavam no poder público: 13 são soldados e cabos da Polícia Militar; 4 são policiais militares aposentados; 2 integram os escalões inferiores do Exército e da Marinha; e um é comissário da Polícia Civil.

A quadrilha era chefiada por dois vereadores - Jonas Gonçalves (PPS) e Chiquinho Grandão (PTB), que usavam gabinetes na Câmara Municipal para coordenar atividades criminosas. Com o apoio da bancada estadual do PMDB, há dois anos eles conseguiram retirar seus nomes do relatório da CPI da Assembleia Legislativa que investigou a atuação das milícias.

"As milícias mostram força quando têm braço político", diz o presidente da CPI, deputado Marcelo Freixo (PSOL). "Não há competição entre tráfico e milícia. A operação fez cair por terra aquela visão utópica e romântica de que a milícia é um mal necessário e uma autodefesa da comunidade. Ela nada mais é do que uma empresa criminosa", diz o responsável pelas investigações, delegado Alexandre Capote.

Isso dá a dimensão do desafio que é combater o crime organizado no Rio. Além de prender criminosos, apreender seu material bélico e atacar sua força econômica, a polícia tem de desarticular ligações políticas - e livrar-se de sua própria banda podre.

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