Religião, política e mídia

A propósito da visita da presidente Dilma Rousseff ao papa Francisco, vale lembrar que estamos acostumados a ver pela televisão e ouvir pelo rádio, durante as campanhas eleitorais, políticos visitando igrejas, templos, sinagogas e mesquitas. O alegado objetivo desses encontros é apresentar balanço de possíveis realizações, planos de governo e currículo.

Fracisco Paes de Barros*, O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2014 | 02h04

Com o avanço das igrejas eletrônicas, que praticamente tomaram conta do rádio e da TV aberta, líderes religiosos passaram a exercer influência muito forte sobre seus adeptos. Esses fiéis têm um peso significativo no eleitorado brasileiro, pois em cada um de quase todos os mais de 5 mil municípios do País existe pelo menos uma emissora divulgando mensagem religiosa. É uma estratégia inteligente, se levarmos em conta que o município é a base da democracia. E que vem obtendo bons resultados. A bancada evangélica na Câmara dos Deputados está crescendo, é muito coesa e atuante. É possível que, no futuro, o presidente da República saia de uma participação direta da bancada evangélica no Congresso Nacional.

Já outros cristãos têm um pensamento diferente em relação ao engajamento político. Eles entendem que "os objetivos do bem comum podem ser legitimamente conseguidos pelos programas, opções e percursos diferentes". Acompanho o pensamento do politólogo italiano Bartolomeo Sorge quando ele diz: "O pluralismo político não só é legítimo, mas também útil e necessário para os próprios objetivos do bem comum, para que, mediante o confronto e o diálogo entre posições e sensibilidades diferentes, se possa chegar a compreender melhor a situação e encontrar a solução mais adequada. O pluralismo é uma riqueza. É claro que o pluralismo político também tem os seus limites".

Os bispos, os padres e os religiosos da Igreja Católica não podem participar da política partidária nem apoiar nenhum candidato. Não obstante, Bartolomeo Sorge afirma: "A Igreja Católica não pode nem deve tomar partido por um ou outro alinhamento político. Isso, porém, não quer dizer que a Igreja não deva falar! Não pode abster-se de fazer uma avaliação moral das culturas políticas, de um modelo social e de um programa, só pelo medo de ser julgada partidária".

A respeito do mesmo assunto o saudoso cardeal Martini observou: "Este é um tempo em que é preciso ajudar a discernir a qualidade moral inata não apenas em cada uma das opções políticas, mas também no modo geral de fazê-las e na concepção do agir político que elas implicam. Não está em jogo a liberdade da Igreja, está em jogo a liberdade do homem; não está em jogo o futuro da Igreja, está em jogo o futuro da democracia".

A propósito das eleições deste ano, tenho ouvido pelo rádio as mais diferentes opiniões sobre a relação entre a religião e a política. Entendo que cada cidadão ou instituição religiosa tem o direito de pensar e agir conforme sua consciência política e religiosa. Pelo que tenho ouvido, parte do eleitorado cristão faz restrição a candidatos ateus. Mas, para a maioria, não há motivos para discriminá-los desde que o seu programa de governo não conflite com os ensinamentos de Jesus Cristo, ensinamentos esses que têm tudo que ver com a democracia. Pois, como ponderou Henri Bergson, "a democracia é de essência evangélica e tem por motor o amor" (Cristianismo e Democracia, Jacques Maritain, Agir Editora).

E por falar em políticos ateus, quando da eleição de 1985 para prefeito de São Paulo houve um debate televisionado entre os candidatos. Jânio Quadros não compareceu. Em certo momento, o jornalista Boris Casoy perguntou ao candidato Fernando Henrique Cardoso se ele acreditava em Deus. FHC respondeu que não achava que as convicções religiosas do candidato fossem relevantes quando se tratava do desempenho como prefeito. Deturparam sua resposta. Comentou-se na época que ele teria perdido a eleição por ter-se declarado ateu. Não acredito, pois as pesquisas feitas pela Rádio Record e pela Jovem Pan antes do debate já apontavam a vitória apertada de Jânio. Creio que o Plano de Deus era outro: a derrota levou FHC a ser eleito duas vezes presidente do Brasil.

Fernando Henrique é um político sério. Em contrapartida, vi nas eleições passadas vários candidatos ateus participando de missas e recebendo a hóstia. Exibicionismo midiático e eleitoreiro. Sou favorável a que todos os candidatos participem, com a presença da mídia, de debates com todas as religiões, sem exceção. Não importa se eles são crentes ou não. Mesmo porque onde estão presentes o amor e a verdade o Espírito de Deus está agindo.

Para mim, o candidato ideal é aquele que pertença a um partido político comprometido com a democracia, tenha um bom plano de governo e um testemunho de conduta exemplar. A propósito, Bartolomeo Sorge, em seu livro Por uma Civilização do Amor, conta: "Quando Mussolini prometeu defender a indissolubilidade do matrimônio, o ensino da religião, a liberdade da escola e os direitos da Igreja e da Santa Sé, é claro que ele propunha valores e conteúdos com os quais os cristãos certamente estavam de acordo. Entretanto, as personalidades mais nobres do catolicismo democrático abertamente tomaram distância dessas ofertas, não porque não partilhassem desses valores e conteúdos, mas porque o método fascista de fazer política era imoral e democraticamente inaceitável".

Eu diria que fazer política é trabalhar para o bem comum de todas as pessoas por amor a cada uma delas. É promover a vida e o ser humano. É lutar por um mundo economicamente justo, socialmente solidário, politicamente democrático e culturalmente pluralista.

Religião é estar aqui e agora ligado a Deus. As religiões são as adesões humanas ao projeto de Deus-Amor. Religião sem amor transforma-se em fanatismo. Não é possível amar a Deus sem amar o próximo.

Quanto à mídia, lembro: "A sociedade tem direito a uma informação fundada sobre a verdade, a justiça e a solidariedade. A informação dos meios de comunicação social está a serviço do bem comum" (Catecismo da Igreja Católica).

*Fracisco Paes de Barros é radialista.

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