Reparando os danos do Brexit

Consumada a aprovação do Brexit, é hora de cuidar dos danos

O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2016 | 03h00

As previsões da economia mundial ficaram um pouco piores depois do Brexit, a decisão britânica de sair da União Europeia, formalizada no plebiscito de 23 de junho. A produção global crescerá 3,1% em 2016 e 3,4% no próximo ano, segundo as novas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgadas em julho. As estimativas anteriores indicavam 0,1 ponto a mais para cada ano. As mudanças na Europa deveriam afetar principalmente os países mais desenvolvidos, a começar, é claro, pelo Reino Unido. Agora, depois de ter surpreendido o mundo com a vitória do Brexit, os cidadãos britânicos defensores da medida talvez estejam começando a se surpreender: as consequências podem ser bem mais complicadas do que imaginavam, como indicam as medidas anunciadas na quinta-feira passada por seu banco central, o Banco da Inglaterra (BoE).

Os economistas do BoE mantiveram para este ano a previsão de crescimento econômico de 2%, a mesma anunciada em maio, porque o desempenho no primeiro semestre já garantiu uma expansão de 1,7%. Para 2016, portanto, a projeção é mais animadora que a do FMI. Mas os números estimados para 2017 e 2018 foram cortados severamente, de 2,3% para 0,8% e de 2,3% para 1,8%. Foi o maior corte na projeção de crescimento desde 1993, quando o país enfrentava as consequências de uma crise no sistema cambial. O Reino Unido foi uma das economias com melhor desempenho no mundo rico, na fase de recuperação do choque de 2008. Hoje, no entanto, parece condenado, segundo alguns de seus técnicos mais competentes, a enfrentar uma dura adaptação às condições de ex-integrante da União Europeia.

Para atenuar o impacto da mudança, os dirigentes do BoE decidiram baixar os juros básicos de 0,5% para 0,25% ao ano. Anunciaram, além disso, uma ampliação do programa de compra de títulos, desenhado para injetar dinheiro no mercado e facilitar a expansão dos negócios. A previsão da compra de bônus subiu para 435 bilhões de libras, com acréscimo de 60 bilhões. Como complemento, foi lançado um plano de compra de dívidas corporativas de 10 bilhões de libras.

Os primeiros efeitos do Brexit foram sentidos logo depois do plebiscito de junho, com desvalorização da libra e sinais de redução da confiança dos consumidores. Para os empresários, a mudança é uma importante fonte de incertezas. As autoridades do Reino Unido e da União Europeia devem ainda iniciar a discussão dos termos da separação. Com o desligamento do bloco, será preciso rever vários vínculos essenciais ao funcionamento da economia britânica. Esses vínculos incluem, para começar, as condições de intercâmbio com os mercados da Europa continental. Além disso, os acordos com o resto do mundo eram mediados pelo bloco.

A negociação das novas condições de intercâmbio com os sócios da União Europeia poderá ser bem mais dura do que devem ter imaginado – se algo imaginaram – os defensores do Brexit. Segundo pesquisa do instituto britânico YouGov, 47% dos alemães, 44% dos franceses, 56% dos finlandeses, 45% dos suecos e 46% dos dinamarqueses defendem a subordinação de qualquer acordo de livre-comércio do Reino Unido a uma cláusula de livre circulação de pessoas. A pesquisa também mostra uma ampla exigência de negociações duras, sem generosidade na oferta de condições aos britânicos. Se essas tendências prevalecerem, os britânicos defensores da separação terão feito, como os críticos previam, um negócio péssimo e até grotesco.

As consequências haviam sido apontadas por diretores do BoE. Parlamentares favoráveis ao Brexit os criticaram por isso, acusando-os de intromissão em assuntos políticos. Os condutores da política monetária disseram ter cumprido sua função. Cumpriram, de fato, e agora, quando a insegurança predomina, dão um passo à frente e ajustam seus instrumentos para facilitar a adaptação e atenuar as consequências. As medidas foram bem recebidas no mercado. Consumada a aprovação do Brexit, é hora de cuidar dos danos.

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