Repercussão no Brasil da eleição de López Obrador

É preciso passarmos das declarações positivas para as providências concretas

Roberto Teixeira da Costa *, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2018 | 03h00

Em 1.º de julho Andrés Manuel López Obrador, Amlo, como é conhecido, conseguiu, em sua terceira tentativa, ser eleito presidente da República mexicana. Anteriormente concorrera nas eleições de 2006 e 2012 e em 2006 foi derrotado por Felipe Calderón, perdendo por uma diferença mínima de 0,56%. Há uma coincidência entre a eleição de Amlo e a de Lula, eleito pela primeira vez em 2003, após duas derrotas anteriores. 

Amlo foi eleito chefe de governo do Distrito Federal mexicano e, basicamente, toda a sua vida foi dedicada à política, diferentemente de Lula, que basicamente militou no sindicalismo, representando o setor automobilístico e de autopeças, antes de ser presidente.

No início de sua vida política Amlo esteve filiado ao Partido Revolucionário Institucional (PRI), que dominou o cenário político mexicano durante muitos anos, à exceção de Vicente Fox, que foi eleito pelo Partidos da Ação Nacional PAN). A vitória de Amlo foi esmagadora, com 53% dos votos. Seu partido Moreno - Movimento de Regeneração Nacional - ocupará 310 das 500 cadeiras da Câmara de Deputados e 69 dos 128 assentos do Senado. Também foi contundente a vitória de seu partido nas principais capitais e cidades do país. Sua plataforma eleitoral foi centrada em austeridade, combate à corrupção, segurança, diminuição das desigualdades sociais e defesa das relações com os EUA. O apoio obtido do Congresso será fundamental.

Há muita semelhança entre os problemas que ele enfrentará e os que temos em nossa pauta econômico-social, os quais terão enorme peso em nossas eleições de outubro. Mas se problemas básicos entre México e Brasil são comuns, as soluções não serão.

A questão da segurança interna no México consegue ser um problema maior que no Brasil, com um número crescente de assassinatos e com os narcotraficantes aterrorizando a vida da sociedade, além das dificuldades do governo em combatê-los. O envolvimento dos militares, posto em prática pelo ex-presidente Calderón, não trouxe resultados e comenta-se fez os narcotraficantes se dividirem, ampliando sua atuação.

Como sabemos, a luta contra a corrupção é uma das grandes dificuldades que vimos enfrentando nos últimos três anos. Lembro-me de que, numa reunião do Conselho Empresarial da América Latina (Ceal), explicava o que estávamos fazendo em prol do comportamento ético e do ataque à corrupção, bem como os possíveis benefícios. Fui interrompido por um empresário mexicano, que enfaticamente disse: “Temos problemas iguais ou até superiores aos do Brasil, mas até agora não tivemos a coragem de enfrentá-los como vocês”.

Problema não menor dos mexicanos que Amlo terá de enfrentar é a relação bilateral com os EUA. Donald Trump continua insistindo na questão de muros na fronteira que separa os dois países e no controle de saída dos mexicanos para os EUA. Convenhamos não ser um problema de solução de curto prazo, como certamente não é o da questão da segurança.

A revisão do Nafta, o acordo de livre-comércio EUA-Canadá-México, questionado na campanha de Trump, redundou na formação de um grupo de trabalho entre os três países, que até agora não mostrou progressos. 

Como repercutirá no Brasil a eleição de Amlo? Obviamente, vai depender de quem vier a governar o País a partir de 2019. Será que teremos um presidente intervencionista e antimercado, mais alinhado com as políticas que Amlo defende, ou um presidente de conciliação e reformista?

Sempre estive entre os que defendem maior aproximação entre nossos países. Várias tentativas continuam sendo feitas para aumentar nosso intercâmbio comercial, mas ainda com uma pauta restritiva nas negociações. Na área de investimentos, os mexicanos têm mais relevância no Brasil do que os brasileiros no México.

A balança comercial entre os dois países (2015-2018) tem sido equilibrada, com ligeiro superávit a nosso favor. No entanto, nossas exportações para o México entre janeiro e maio representaram tão só 2,07% do total, enquanto nossas importações, 2,81%. No ranking global, o Brasil ocupou o nono lugar nas exportações para o México e o sexto nas importações. Tanto num caso como no outro, exportações e importações de automóveis estavam no topo da lista, assim como partes e peças de veículos, motores e tratores.

Quanto ao investimento brasileiro no México, tivemos um total acumulado de US$ 8,350 bilhões, lembrando Braskem, Oxiteno, Marcopolo e WEG. Quanto à participação direta do México no Brasil, estima-se um montante de US$ 30 bilhões acumulado, sendo o primeiro destino de investimento de mexicanos na América Latina. Destacamos Cemex, Arcelor Mittal, Coca-Cola, Femsa, Grupo Bimbo, Vigor (Lala), Vitro e, certamente, América Móvil (Claro Net e Embratel).

Por último, lembro-me de um almoço em Los Pinos oferecido pelo então presidente Carlos Salinas de Gortari ao Ceal. Em sua apresentação enfatizou que o México deveria olhar mais para baixo (Sul) e diminuir a dependência do Norte. Todos os mexicanos com quem converso estão de acordo, mas a realidade tem sido bem mais difícil de superar, pelos interesses corporativos! Devemos esperar que o protecionismo norte-americano possa forçar uma maior aproximação e acelerar acordo comercial de maior relevância? Diga-se de passagem que a maior inserção do Brasil no cenário internacional tem estado ausente dos debates entre os presidenciáveis.

De qualquer maneira, as eleições mexicanas, mesmo levando em conta as diferenças entre as nossas economias, precisa ser analisada cuidadosamente, buscando um diálogo com Amlo que passe das declarações positivas para providências concretas.

* MEMBRO DO GACINT, É UM DOS FUNDADORES DO CONSELHO EMPRESARIAL DA AMÉRICA LATINA (CEAL) 

E DO CENTRO BRASILEIRO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS (CEBRI)

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