Republicanos vão à forra

A insatisfação da maioria dos americanos com a incapacidade do governo Barack Obama de reduzir o desemprego - que se mantém teimosamente perto de 10% - e a tóxica ofensiva da direita contra o presidente que mais esperanças despertou nos Estados Unidos em muitos anos privaram o Partido Democrata da maioria na Câmara dos Representantes, conquistada em 2006, quando a era Bush caminhava para o colapso. Nas eleições de meio de mandato, em novembro último, a oposição republicana elegeu 242 deputados, 66 a mais do que em 2008, enquanto o partido do governo perdeu 62 lugares, ficando com 193. No Senado, embora os democratas tivessem mantido a maioria, a sua vantagem diminuiu de 18 cadeiras para apenas 6.

, O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2011 | 00h00

Na abertura da legislatura na Câmara, na quarta-feira, ficou mais que confirmada a disposição dos republicanos de incinerar a agenda de mudanças de Obama, a começar pela derrogação da reforma do sistema de saúde no país, que ele conseguiu aprovar exclusivamente com votos democratas - e fazendo concessões substanciais à ala conservadora de seu partido. O programa, que obriga toda a população a ter seguro médico, pretende estender os serviços de saúde a 30 milhões de americanos ainda desassistidos. A oposição sabe que as suas chances de ab-rogar a reforma, a entrar em vigor em 2014, são limitadas. Primeiro, porque o pretendido desmanche, ainda que vitorioso na Câmara, já na próxima semana, dificilmente passará no Senado. E, se passar, Obama o vetará.

Mas a meta republicana é acuar o presidente, bloquear as suas iniciativas, desidratá-lo politicamente e manter a radicalização do debate público, preparando o terreno para a reconquista da Casa Branca. A frente direitista prega menos governo, menos gastos públicos e menos impostos. Mas ela parecer saber melhor como denunciar com estridência o que diz ser o "socialismo" da atual administração do que formular, para além das generalidades, um programa viável de recuperação da economia, aumento do emprego e contenção do multibilionário déficit americano. Essa avaliação é compartilhada pela maioria dos analistas independentes, entre os quais se incluem críticos severos do desempenho de Obama - que perdeu apoios à esquerda sem ganhar nada à direita.

O mantra republicano é que o que denunciam como estatismo do presidente - exemplificado nas suas medidas de regulação dos negócios, em seguida à mais devastadora crise econômica desde a Grande Depressão - "mata empregos". A retórica funciona, naquele país onde a liberdade de iniciativa e o sucesso individual são valores profundamente entranhados. Mas foram as políticas irresponsáveis de Bush, entre as quais generosos cortes de impostos para os mais ricos e incentivos fiscais às mancheias - sem falar no custo astronômico da guerra no Iraque - que abriram as veias das contas públicas dos EUA. Nada disso tem o menor significado para os quadros em ascensão no partido, como os seus 87 deputados de primeiro mandato que chegaram ao Capitólio na terça-feira, cujo descortino pode ser medido pelo fato de a musa inspiradora da maioria deles ser Sarah Palin, a tosca ex-governadora do Alasca, companheira de chapa de John McCain em 2008, cotada para ser a desafiante de Obama na próxima sucessão.

No seu discurso de posse, o novo presidente da Câmara, John Boehner, eleito por Ohio, afirmou que, para cumprir a meta partidária de reduzir os gastos do governo em US$ 100 bilhões, cortará o orçamento do Congresso - como se isso fizesse grande diferença para o rombo financeiro do país. Ele disse que se empenhará também em mudar o regimento da Casa para beneficiar a oposição. Mas quem expôs a verdadeira prioridade republicana foi o seu colega Darrell Issa, que assumiu o comando da poderosa comissão de fiscalização e reforma do governo e não esconde a intenção de intimidar a Casa Branca. O deputado, que já acusou Obama de ser "um dos presidentes mais corruptos dos tempos modernos", promete, no mesmo tom, promover "sete devassas por semana, durante 40 semanas".

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