Repúblicos, frei Vicente e Adam Smith

Gastão Reis Rodrigues Pereira

O Estado de S. Paulo

13 Maio 2015 | 03h11

A mente humana pode interpretar o mesmíssimo fato de modo radicalmente diferente. Richard Wiseman, em seu livro O Fator Sorte, relata a pesquisa que conduziu, por cinco anos, com dois grupos humanos: aqueles que se julgavam extremamente sortudos e os que se rotulavam como tremendamente azarados. Emblematicamente, ele cita o caso de alguém que estava na fila do caixa no momento em que o banco foi assaltado e levou um tiro no braço. Se for do tipo azarado, sua cabeça funciona assim: “Só mesmo eu! Poderia estar ali dez minutos antes ou depois do assalto, mas não, eu tinha de estar ali na hora exata de tomar um tiro”. Já a cabeça do sortudo trabalha de modo bem diferente: “Tenho mesmo muita sorte. O tiro poderia ter sido fatal, no coração ou na cabeça”. Essa visão em relação aos fatos da vida pode ocorrer não só no plano individual, mas no coletivo, como veremos a seguir.

Ao reler uma citação muito comentada de frei Vicente do Salvador, de 1630, em seu livro História do Brasil, eu me dei conta de que ele e Adam Smith estavam em campos opostos quanto aos efeitos sociais do interesse pessoal. O jesuíta é muito citado por ter registrado o seguinte veredicto sobre a Terra Brasilis: “Nenhum homem nesta terra é repúblico, nem vela nem trata do bem comum, senão cada um do seu particular”. Adam Smith, por sua vez, em época posterior (1776), mas historicamente próxima, afirmava, sem se indignar: “Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que devemos esperar o nosso jantar, mas de sua preocupação com seu interesse pessoal”. Ou seja, com o lucro que poderá obter. Em seguida, vai mais fundo ainda: “Ao perseguir seu interesse próprio, ele (o padeiro, por exemplo) frequentemente promove o da sociedade mais efetivamente do que quando ele pretende se importar diretamente com ela”. Uma bela lição para os exageros sociais do PT.

A História do século 20, e do Brasil em particular, não deixa dúvidas quanto à capacidade dos governos de piorarem o que poderia ter ido muito melhor sem sua interferência. A interferência total na economia, como foi feita na ex-União Soviética, na China e em Cuba, deu no que deu. A interferência parcial, mas exagerada, fez vítimas os povos da Venezuela e da Argentina. Também fez estragos no nosso caso, em diferentes períodos históricos, como nos últimos anos do (des)governo Dilma Rousseff. Perdemos quatro anos e vamos perder mais dois, no mínimo, para pôr a casa em ordem.

Essa dificuldade de aprender o que funciona e o que não funciona em economia entre nós vem de longe. E não foi só o caso de frei Vicente, até certo ponto compreensível, dada a inexistência em seu tempo da ciência econômica. Quase dois séculos depois, o engenheiro Gustavo Corção, que poderia ter lido Adam Smith, criou uma cooperativa no auge da Ação Católica Brasileira, nos idos de 1930 e 1940. Ele queria combater a ganância do Manuel, o português dono do armazém, como se dizia na época. Seu entusiasmo durou, como ele mesmo confessou, até o dia em que descobriu que o quilo da batata vendido pelo nosso caro lusitano estava mais barato do que o da sua cara (nos dois sentidos!) cooperativa. Pelo jeito, até hoje o setor público brasileiro não se deu conta de como cobra caro por suas batatas, como diria Machado de Assis. Aliás, a batata, o arroz, o feijão, a conta de energia elétrica, a gasolina e outros itens básicos para a população em geral nesse festival de aumentos de preços patrocinados pelo atual governo. “Mas eu deixei tudo escrito direitinho, e eles não aprenderam nada”, diria Adam Smith. Raymond Aron reforçaria: é o efeito prático do ópio dos intelectuais, o marxismo.

Nessa mesma linha, numa entrevista dada por um scholar americano, no auge daquele nosso longo processo inflacionário, ele comentava que não se surpreendia com a baixa escolaridade da população brasileira, mas, sim, com a de nossa classe dirigente. Ou seja, o despreparo causador da tomada decisões equivocadas com efeitos perniciosos de longo prazo. A rigor, não precisamos dos gringos para saber disso. Roberto Campos alertou-nos, anos a fio, sobre as políticas econômicas erráticas adotadas que impediram o País de dominar a inflação, de elevar sua produtividade e de ter competitividade internacional.

Por outro lado, há que reconhecer que com o Plano Real conseguimos colocar as pessoas certas, no lugar certo, em tempo não tão certo em face da demora em implementar políticas corretas nos anos anteriores a 1994. Mas, felizmente, dispúnhamos de técnicos e economistas que tinham lido não somente Adam Smith e sabiam o caminho das pedras para recolocar o País nos eixos. Roberto Campos, entretanto, ainda nos deixou outro alerta: “Ou o Brasil acaba com os economistas da Unicamp, ou eles acabam com o Brasil”. (Na entrevista, no Roda Viva, em 1991, em que deu essa afirmação, ele fez questão de ressalvar a qualidade da Unicamp em outros ramos do saber.) O Lula do primeiro mandato ainda preservou certa dose de bom senso, depois enveredou pelo desvio de rota que, no final, o induziu a indicar para presidente da República a sra. Dilma, que cursou Economia na Unicamp. E ela fez o serviço deletério a despeito dos inúmeros alertas de economistas de boa cepa. 

A lição deixada por Adam Smith é que sermos ou não repúblicos não vai ao âmago da questão de nossa marcha lenta. O açougueiro, o cervejeiro e o padeiro ingleses também não o eram. E nem por isso a Inglaterra ficou para trás. Na verdade, saiu na frente. Nosso atraso relativo tem que ver com o descaso na formação de capital humano e com nosso viés antiempresarial e antimercado. André Lara Resende, no jornal Valor, de 18/4/2014, antecipando os resultados de pesquisa sólida de dois professores da Universidade Harvard, nos informa que governos são muito menos poderosos do que pensam para influenciar os rumos de uma economia, mas são muito eficientes em levá-la para o brejo. Mais uma vez, fomos parar lá. Até quando?

*Gastão Reis Rodrigues Pereira é empresário e economista - E-mail: gastaoreis@smart30.com.br

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