Retirada em surdina

Os Estados Unidos não só anteciparam em duas semanas o início da retirada de suas tropas de combate no Iraque, marcada para 31 de agosto pelo presidente Barack Obama, como ainda o fizeram na calada da noite, em comboios fechados rumo ao vizinho Kuwait, depois de obter dos correspondentes estrangeiros em Bagdá e das autoridades locais a promessa de silenciar sobre o assunto até que o grosso da mudança tivesse terminado, na última quarta-feira.

, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2010 | 00h00

Poucos fatos poderiam ser tão eloquentes para a avaliação dos continuados reveses da Operação Iraque Livre, como o governo de George W. Bush denominou a insana invasão do país iniciada em 19 de março de 2003. Pois, tanto a antecipação da retirada como a sua execução em surdina foram explicadas por "razões de segurança" - medo de atentados, em linguagem corrente. É verdade que a insurgência contra os invasores perdeu a virulência de tempos passados, mas está longe de ter sido erradicada.

A contar de janeiro, os americanos perderam 44 homens, ou 1% das 4.415 baixas acumuladas ao longo destes quase 7 anos e meio de ocupação. Isso, por sua vez, representa uma fração das centenas de milhares de iraquianos mortos ou feridos no período, sem contar o número ainda maior de civis cujas casas foram destruídas ou que tiveram de se refugiar no exterior. E a violência não cessa: no começo da semana, um ataque suicida diante de um quartel matou 57 pessoas na fila por uma vaga nos serviços iraquianos de segurança.

Dias antes, o comandante militar, general Babaker Shawkat Zebari, disse que preferia que as tropas americanas ficassem até 2020, porque antes disso o Exército iraquiano não poderá cuidar da casa por conta própria. Segundo o calendário traçado por Obama, ficarão no país, até dezembro de 2011, 50 mil soldados incumbidos apenas de treinar os militares locais e assisti-los em tarefas logísticas. Os EUA chegaram a ter 170 mil soldados no Iraque.

Não só a insegurança persiste. A instabilidade política também. Embora, pela primeira vez, os iraquianos tivessem podido participar de três eleições livres e relativamente limpas, a um governo disfuncional segue-se outro. Ou nenhum: desde o pleito de março, que produziu um Parlamento sem maioria, as coalizões rivais não chegam a um acordo para formar um governo que substitua o do primeiro-ministro Nuri Kamal al-Maliki. E os principais grupos etnorreligiosos do país (sunitas, xiitas e curdos) mantêm demandas conflitantes e potencialmente explosivas.

O ceticismo em relação às vantagens da democracia não cessa de emergir nas pesquisas e relatos da imprensa. Só uma minoria tem saudade do despotismo de Saddam Hussein. Mas sobram motivos de desilusão com o sistema político e a burocracia delinquente. "A segunda insurgência", diz um alto funcionário americano em Bagdá, "chama-se corrupção." A ela a população de Bagdá atribui o seu maior suplício cotidiano, a escassez de eletricidade. Hoje em dia, a capital só tem luz durante 5 horas por dia.

A irradiação da democracia do Iraque para o mundo árabe foi o segundo pretexto do bushismo para justificar o que entraria para a história como o pior erro estratégico de um governante americano. O primeiro argumento, como se recorda, foram as armas de destruição maciça em posse de um Saddam supostamente aliado à Al-Qaeda. Nem elas existiam nem a tradição autoritária da região cedeu lugar a qualquer coisa parecida com um regime de liberdades. O que mudou - para pior - foi o equilíbrio geopolítico no Golfo Pérsico.

Antes da invasão, o Iraque, de maioria sunita, e o Irã, xiita, inimigos mortais, representavam cada qual um freio para o outro. A córnea obtusidade de Bush, ao romper a correlação de forças no Iraque, dando aos xiitas um peso político desproporcional à sua importância demográfica, criou condições para que o Irã estabelecesse uma cabeça de ponte no vizinho país. Mas, acima de tudo, a invasão provocou na esfera árabe-muçulmana um surto de ódio que, apesar de Obama, continuará a reverberar por muito tempo.

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