Retomada continua. E depois?

Potencial de crescimento econômico do Brasil foi rebaixado, durante vários anos, por deficiência de investimentos, pela deterioração das finanças públicas e por vários outros fatores

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15 Setembro 2017 | 03h09

A produção continua a crescer e novos sinais sustentam a expectativa de uma recuperação mais firme no segundo semestre. Depois dos números positivos do consumo e da produção industrial, divulgados nos últimos dias, uma avaliação mais ampla da economia reforça o otimismo em relação ao fim do ano e às condições de 2018. De junho para julho aumentou 0,41% o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), também conhecido no mercado como prévia do Produto Interno Bruto (PIB). Esse indicador, calculado na série com desconto dos fatores sazonais, ficou 1,48% acima do correspondente a julho do ano passado, confirmando a tendência de resultados melhores que os de 2016. Os novos dados do IBC-Br, segundo analistas do setor financeiro, dão base para previsões de crescimento econômico entre 0,5% e 0,7% neste ano.

As projeções de aumento do PIB em 2017 vêm aumentando há algumas semanas, de acordo com a pesquisa Focus, do Banco Central. Esse levantamento é realizado por meio de consultas a cerca de cem economistas de instituições financeiras e de consultorias e divulgado toda segunda-feira. Pela mediana das últimas projeções, a economia deve crescer 0,60% neste ano, 2,10% no próximo e 2,50% em 2019.

Na semana anterior, a projeção apontava um crescimento econômico de 0,50% em 2017. Quatro semanas antes da última pesquisa Focus, a mediana das estimativas estava em 0,34%, previsão igual à divulgada em julho pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Em junho, os técnicos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) já haviam elevado de zero para 0,7% sua previsão.

Se a política evoluir sem grandes solavancos, as projeções de melhora da economia serão certamente confirmadas nos próximos meses. O PIB do trimestre final de 2017 será 2,7% maior que o de um ano antes, tem dito o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Os números esperados para o próximo ano também são nitidamente melhores.

A mediana das projeções coletadas na pesquisa Focus chegou a 2,10%. Os economistas do FMI estimam 1,3%. Os da OCDE, 1,6%. O projeto de lei orçamentária para 2018, enviado ao Congresso no fim de agosto, explicita como hipótese uma expansão econômica de 2%, com inflação de 4,2%, superior à estimada para este ano (abaixo de 4%), mas administrável e compatível com algum aumento de renda real para os trabalhadores.

Nada disso, é claro, está garantido, e todas essas projeções serão liquidadas facilmente se o quadro político se deteriorar. Excluída essa hipótese, há pouca dúvida quanto à consolidação de um novo quadro econômico, bem melhor que o de 2017. Sobram, no entanto, muitas e bem fundadas dúvidas sobre os anos seguintes. A questão central se refere, naturalmente, ao potencial de crescimento econômico do Brasil, muito rebaixado, durante vários anos, por deficiência de investimentos, pela deterioração das finanças públicas e por vários outros fatores. Destaque-se a desastrosa política educacional do período petista, mais voltada para objetivos eleitorais do que para a formação de pessoas capazes de desenvolver competências.

Alguns dos obstáculos mais importantes são de ordem fiscal. Sem reforma da Previdência, o sistema absorverá, ano a ano, parcelas crescentes do dinheiro coletado pelo setor público. Será cada vez menor a porcentagem de recursos disponíveis para investimentos públicos e até para a operação rotineira do governo.

Neste momento, o potencial de crescimento deve estar, segundo estimativas do governo, em torno de 2% ao ano. Poderá chegar a algo na faixa de 3% a 4%, em alguns anos, se reformas forem aprovadas para aliviar as finanças publicas e dar maior flexibilidade e maior eficiência ao funcionamento das empresas e, de modo geral, do mercado. A modernização do sistema tributário será um dos passos mais importantes. Sem essas mudanças, qualquer discurso a respeito de criação de empregos e de oportunidades será palavrório vazio. Quantos candidatos, em 2018, serão capazes de ir além dessa retórica?

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