Retrocesso no Peru

Salvo uma improvável reviravolta na contagem dos votos da eleições de domingo no Peru, o país escolherá no segundo turno de 5 de junho "entre o câncer e a aids", como o escritor Mario Vargas Llosa se referiu antes do pleito aos candidatos presidenciais Ollanta Humala, ex-militar e populista de esquerda, e Keiko Fujimori, deputada populista de direita, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, que cumpre pena de 25 anos por corrupção e violação de direitos humanos.

, O Estado de S.Paulo

13 Abril 2011 | 00h00

Na rodada final da disputa anterior, em 2006, Humala perdeu a presidência para o candidato Alan García, porque as suas ideias radicais e as suas ostensivas ligações com o caudilho venezuelano Hugo Chávez uniram a maioria do eleitorado em torno do adversário que, na sua primeira passagem pelo poder, de 1985 a 1990, conseguiu associar incompetência, demagogia e corrupção. Mas Garcia teve 15 anos para reconstruir a sua imagem e, em seu segundo governo, a economia peruana bateu recordes de crescimento.

À primeira vista, portanto, Humala estaria fadado a perder de novo a presidência, porque a maioria dos eleitores, sobretudo os dos setores sociais que mais se beneficiaram da expansão econômica dos últimos anos, tenderia a preferir um mal político já conhecido - o fujimorismo -, que manipulou à farta os poderes do Estado, desviou fortunas do erário, dissolveu o Congresso, mas não tocou nos ganhos das elites econômicas. Nessa perspectiva, a alternativa indesejada seria o nacionalismo estatista e autoritário de Humala.

Mas na fragmentada cena política peruana seria prematuro dar como inexorável a união dos eleitores moderados - que domingo se dividiram, pela ordem, entre os candidatos Pedro Paulo Kuczynski, 72 anos, ex-ministro da Economia; Alejandro Toledo, 64, que governou o país de 2000 a 2006; e Luís Castañeda, ex-prefeito de Lima, 65 - em torno da deputada Keiko, 35. Poucos peruanos duvidam de que, se eleita, as rédeas do governo ficarão em mãos de Fujimori-pai, seja atrás das grades ou beneficiado por uma eventual anistia.

Humala, por sua vez, tenta convencer o eleitorado de que está em marcha acelerada rumo ao centro do espectro político. Fez parte dessa metamorfose dissociar-se da própria biografia. Militar, liderou em 2000 um frustrado golpe contra Fujimori, à semelhança do que o seu guru Hugo Chávez intentara contra o então presidente venezuelano, Carlos Andrés Pérez, uma década antes. Humala se dissociou também do irmão Antauro, responsável por um sangrento assalto a um quartel no sul do país.

O "novo" Humala não só passou a fazer cara de paisagem quando lhe perguntavam sobre as suas afinidades com Chávez, como não perdeu ocasião de sugerir que agora a sua referência na América Latina é Luiz Inácio Lula da Silva. Sob a orientação dos mentores petistas, Luís Favre e Waldemir Garreta, substituiu também os blusões vermelho-chávez por ternos escuros, assinou uma versão peruana da apaziguadora Carta aos Brasileiros, divulgada por Lula em 2002, e baixou o tom de suas promessas mais polêmicas - a convocação de uma Assembleia Constituinte e mudanças na legislação que possibilitou a bem-sucedida abertura da economia do país.

Se o eventual sucesso não lhe subir à cabeça, Humala haverá de saber que o seu eleitorado não o sufragou para rever o modelo econômico que permitiu ao Peru crescer em média 7% ao ano na afinal impopular administração García, mas para fazer chegar os frutos do progresso ao grosso da população - os habitantes do Altiplano e da Amazônia peruana e os indígenas, em toda parte.

As urnas no Peru traduziram evidentemente o descontentamento dos mais pobres com o desenvolvimento econômico sem redistribuição de renda nem mudanças nos péssimos serviços básicos de que dependem. Ainda assim, estima-se que a votação de Humala não deve chegar nem a 1/3 do total. Dificilmente também a sua coalizão Gana Peru terá a maioria das 130 cadeiras do novo Parlamento desse país à míngua de partidos fortes - mais um indicador de instabilidade futura.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.