Reviravolta no Egito

Nem as pirâmides, que tudo já viram, esperavam por essa. Um mês e meio depois de assumir o governo, o primeiro presidente egípcio eleito pelo voto popular, Mohamed Morsi, despachou para a reserva o marechal Mohamed Hussein Tantawi. Durante duas décadas ele foi ministro da Defesa e braço direito do ditador Hosni Mubarak. Em fevereiro do ano passado, quando o autocrata foi obrigado a renunciar, ao cabo de 18 dias de manifestações pelo fim do regime, Tantawi o substituiu, na condição de chefe do Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), a junta que tomou o poder com a promessa de uma nova Constituição e eleições livres. Morsi o conservou na Defesa, dando a impressão de que o Egito avançara apenas meio passo no caminho da mudança exigida pelas multidões da Praça Tahrir.

O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2012 | 03h09

Havia, de fato, motivos de sobra para duvidar que o privilegiado estamento armado, que controla o Estado e 40% da economia nacional, iria se recolher mansamente à caserna, cumprida a sua parte na transição. Em junho, o CSFA reinstituiu o estado de emergência que garroteara o país durante 30 anos, extinto duas semanas antes. Em seguida, a Corte Constitucional, cujos membros foram todos nomeados por Mubarak, ordenou a dissolução do Parlamento, de ampla maioria islâmica, eleito na virada do ano, delegando à junta as suas atribuições. A decisão foi tomada às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, vencidas por Morsi.

Indicado pela Irmandade Muçulmana para concorrer depois de a junta ter mandado cassar o seu candidato original, Morsi - um engenheiro de 51 anos, formado nos Estados Unidos e orador sonífero - tentou mostrar a que veio. Desfiliou-se do partido islâmico, apelou à unidade nacional e ordenou a reabertura do Parlamento. Mas o tribunal fincou pé e ele recuou. Foi a sua segunda derrota consecutiva: entre a eleição e a posse, sempre com apoio judicial, os militares baixaram uma espécie de versão egípcia do infame Ato Institucional n.º 5 da ditadura brasileira: impuseram uma Constituição provisória e impediram o presidente em vias de assumir de dar a última palavra sobre a política externa e a segurança interna, o orçamento das Forças Armadas e das estatais sob o seu mando. Parecia traçado em terra firme o desequilíbrio dos poderes na era pós-Mubarak, sob hegemonia fardada.

Ainda não se sabe quando e em que circunstâncias Morsi teria resolvido virar o jogo. De todo modo, no fim da semana atrasada, um ataque jihadista a forças policiais egípcias na Península do Sinai, na área de fronteira com Israel, matou 16 soldados e deu ao presidente uma oportunidade que talvez não esperasse. Entre outros oficiais da cúpula dos serviços de segurança, ele demitiu sumariamente o chefe da Inteligência nacional, Mourad Mowafi. O que se passou nos dias seguintes permanece nebuloso, mas no domingo ele fez o inimaginável. Aposentou não apenas Tantawi, mas também o chefe do Estado-Maior do Exército, general Sami Hafez Anan, além de afastar os comandantes da Marinha e da Força Aérea. Não foi, porém, o costumeiro murro na mesa. Antes de mandar Tantawi e Anan para a reserva, honrou-os com a Ordem do Nilo, a mais alta condecoração do país, e os nomeou seus conselheiros.

Em outro indício de que mediu os seus atos, provavelmente negociando com o Exército, Morsi escolheu dois membros do CSFA para ministro da Defesa e chefe do Estado-Maior, os generais Abdul-Fattah el-Sisi e Sidqi Sobhi Sayed. Invocando "os melhores interesses da nação", disse em discurso apaziguador que não pretendia "constranger" ou "antagonizar" os chefes militares. Só que ele fez muito mais do que substituir altas patentes. No mesmo dia, declarou caduco o decreto militar que limitava drasticamente a sua esfera de ação, encampando os poderes do Parlamento fechado. Prevendo problemas com a Corte Constitucional, nomeou vice-presidente o respeitado juiz Mahmoud Mekky. Isso significa que até as eleições legislativas que anunciou para 60 dias depois do referendo sobre a Constituição, ainda sem data para ser concluída, Morsi terá prerrogativas ditatoriais.

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