Risco de racionamento de água

Para evitar ao máximo o racionamento de água no Estado de São Paulo, o governador Geraldo Alckmin decidiu confiar na previsão meteorológica, que aponta para a ocorrência de chuvas a partir do dia 15, e apostar na influência que um desconto concedido na conta de água pode ter na mudança de hábito da população: a partir de agora, consumidores abastecidos pelo Sistema Cantareira que reduzirem o consumo em 20% terão desconto de 30% na conta de água. A solução foi usada em 2004, quando São Paulo enfrentou forte estiagem e, segundo o governo, foi fundamental na recomposição dos reservatórios.

O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2014 | 02h12

Uma década depois, a situação do Sistema Cantareira é ainda pior: apresenta apenas 21,4% da capacidade nos reservatórios. É o resultado da lentidão nas obras de infraestrutura, destinadas a melhorar a oferta de água, e da incapacidade de criar campanhas permanentes e normas efetivas para a conscientização da população.

Sucessivos recordes de altas temperaturas e de estiagem levaram o Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de mais de 8 milhões de pessoas na Grande São Paulo, a atingir apenas 21,4% da capacidade nos reservatórios de água, conforme dados da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Embora o quadro, na avaliação do governo, seja preocupante, a presidente da Sabesp, Dilma Pena, disse que o racionamento "não está no radar". Já para o presidente do Conselho Mundial da Água, Benedito Braga, a situação é gravíssima, e o racionamento, iminente.

Seja como for, resta evidente a incapacidade da administração pública de contar com planos de contingência para situações extremas. As tragédias recorrentes, como as provocadas pelas enchentes, ou as dificuldades trazidas por episódios de seca sempre são enfrentadas com meias medidas, em caráter de urgência. É inexplicável como o Estado mais rico da Federação continua despreparado para esses tipos de episódio, apesar dos recursos hoje à disposição - a meteorologia, por exemplo, tem precisão suficiente para indicar a necessidade de antecipar determinadas medidas. Em dezembro, já se sabia que o ano começaria com seca. Por que esperar por milagres enquanto as represas eram intensamente exigidas?

Esse planejamento deveria começar na educação permanente da população, para que o meio ambiente e os recursos naturais sejam utilizados racionalmente. Ao mesmo tempo, a administração pública e os órgãos de defesa do meio ambiente deveriam trabalhar em sintonia para que obras necessárias fossem aprovadas ou adequadas com agilidade, em benefício da população.

No caso da estiagem que hoje ameaça o abastecimento de água em vários municípios da Grande São Paulo, os problemas seriam em grande parte evitados se o cronograma das obras de transposição do Rio Juquiá tivesse sido cumprido. Há um atraso de ao menos dois anos na execução, por conta do vaivém das licenças concedidas e cassadas, numa disputa irracional entre órgãos ambientais e empreiteiras.

O Sistema Produtor São Lourenço, complexo projetado para ampliar a produção de água tratada para a região metropolitana de São Paulo, só deverá ser concluído em quatro anos - dois além do prazo inicial. A obra trará 4,7 mil litros de água por segundo da Bacia do Rio Ribeira, o que representa 6,4% da capacidade máxima retirada do Sistema Cantareira. A água será bombeada para vencer um desnível de 300 metros na Serra de Paranapiacaba e chegar a 1,5 milhão de moradores de Barueri, Carapicuíba, Cotia, Itapevi, Jandira, Santana de Parnaíba e Vargem Grande Paulista.

O último sistema construído em São Paulo com o objetivo de aumentar a oferta de água foi o Alto Tietê, em 1993. De lá para cá, a população cresceu, o consumo aumentou e a Sabesp penou para acompanhar essa demanda. Assim, a questão exige esforço de todo o poder público para que educação, legislação, planejamento e infraestrutura reduzam a necessidade de rezar para São Pedro sempre que chega a época das previsíveis secas.

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