Roça e pasto

Dois grandes eventos sacodem, nestes dias, a agropecuária nacional. Em Ribeirão Preto, a Agrishow. Em Uberaba, a Expozebu. Na primeira, brilha a lavoura. Na segunda, encanta a pecuária. Rolam diversão, negócios e, acima de tudo, boa tecnologia.

Xico Graziano, O Estado de S.Paulo

05 Maio 2010 | 00h00

A Expozebu vence longe na tradição. Há 76 anos o maior evento da pecuária brasileira se realiza no Triângulo Mineiro. Ponto de encontro de lideranças políticas, criadores e profissionais do setor, no ano passado a mostra recebeu 300 mil visitantes. Chapéu na cabeça, fivela lustrosa no cinto, botina no pé, uma multidão curiosa entope o recinto. Shows de música e paquera se misturam com reuniões técnicas e concursos leiteiros. Fora os sensacionais leilões de gado, realizados toda noite durante os 40 dias que dura a feira. Três mil animais, só cabeceiras, passarão pelo julgamento nas pistas. Desfile chique.

Quem organiza a Expozebu é a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu. A famosa e querida ABCZ aglutina 18 mil associados, pecuaristas registrados das dez raças zebuínas existentes no País, destacando-se Nelore, Guzerá e Gir. O plantel zebuíno representa 80% do rebanho nacional, estimado em 190 milhões de cabeças de gado. O Brasil tornou-se, a partir de 2004, o maior exportador mundial de carne bovina, ocupando 30% do mercado internacional. Medalha de prata fica com a Austrália (19%).

O gado zebu (Bos indicus) origina-se na Índia. Caracterizada por uma corcunda no dorso - o cupim -, essa espécie, de maioria esbranquiçada, caracteriza-se também por conter animais mais rústicos, bons de pasto, compondo a base da pecuária brasileira de corte. Já o gado de origem europeia (Bos taurus), a exemplo do Holandês, mais exigente, normalmente colorido e peludo, destina-se especialmente à produção de leite. Novas raças, entretanto, chamadas sintéticas, surgem de variados cruzamentos entre as duas espécies bovinas. Modernidade genética.

Mostrando que estão ligados na atualidade, o tema central dos pecuaristas em Uberaba será "Genética zebu: futuro sustentável". Pesquisas recentes apontam que a recuperação de áreas degradadas de pastagem pode contribuir para a redução das emissões de gás carbônico (CO2), reduzindo o efeito estufa na Terra. Bem manejadas, armazenam matéria orgânica no solo em até 4%, nível comparável ao das florestas. Sabe-se também que a redução da idade de abate, conseguida com a precocidade no ganho de peso dos animais, minimiza a produção de metano advinda da ruminação entérica. Menor tempo no pasto, maior benefício ambiental. Notícias positivas.

Reprodutores excepcionais, touros ou vacas, valem ouro nos remates da pecuária de elite, uma espécie de Fórmula 1 do setor. Técnicas de fertilização in vitro potencializam a capacidade reprodutiva dos bichos. Uma vaca pode gerar até 30 bezerros por ano, nascidos em barrigas de aluguel. Touros andam frustrados: houve um aumento de 11,6% na comercialização de sêmen, com vendas de 9,1 milhões de doses para inseminação artificial em 2009. Bezerros de proveta.

Do pasto para a roça. Na jovem Agrishow, de Ribeirão Preto, quem dá as cartas é a mecanização agrícola. Nascida em 1994, ela mudou a história das feiras agropecuárias no País, ao introduzir o conceito das demonstrações "dinâmicas". Destaque para a tecnologia em ação. Nessas apresentações de campo, máquinas agrícolas atestam seu desempenho, testemunhado ao vivo por grupos de agricultores. As empresas competem em condições reais de operação. Marketing da verdade.

Nenhum show de música se realiza na feira agrícola de Ribeirão Preto. Nada de bebida, pouca paquera. Quem brilha na festa é a tecnologia de ponta e o artista principal se chama agricultor. Na terra do Pinguim - a choperia mais famosa do Brasil! - 730 empresas expositoras lançaram novos modelos, promovendo rodadas de negócios. Uma vitrine tecnológica.

Em 16 anos de sucesso, a Agrishow cresceu, incorporando a preocupação com o segmento da agricultura familiar e incluindo tecnologias para a área animal. Tudo o que é novidadeiro se encontra por lá. Grupos de produtores, milhares deles, organizados em excursão, saem por faculdades, sindicatos, cooperativas, Sebrae, Senar. Centenas de ônibus enchem os estacionamentos. Boquiabertos, estrangeiros babam na Agrishow.

O palco da maior festa da tecnologia agrícola do País se monta na estação experimental do Instituto Agronômico (IAC), atualmente chamada Centro de Cana. Uma grife de valor inquestionável. Estima-se que entre 60% e 70% das variedades cultivadas no País tenham origem nas pioneiras seleções genéticas realizadas nesse formidável órgão de pesquisa, fundado por dom Pedro II em 1887. Visão de estadista.

Roça ou pasto, qual é mais importante? Difícil responder. As atividades pecuárias ocupam no Brasil área maior que as lavouras, 172 milhões ante 72 milhões de hectares, incluindo pastagens naturais. No valor da produção, todavia, a lavoura (57%) vence a criação (43%), mesmo esta englobando todos os ramos animais. Ambas se fortalecem.

Tal distinção produtiva, que ainda se percebe visitando a Agrishow e a Expozebu, representa a tradição. O novo no campo surge com sua síntese, a integração da lavoura com a pecuária. Impensável no passado, sistemas de produção desenvolvidos pela Embrapa promovem uma rotação, na mesma área, entre o cultivo e a pastagem. Sai o grão, entra o gado. No mesmo ano. Incrível.

A integração lavoura-pecuária, atual coqueluche do campo, enfrenta a decantada especialização produtiva. Disputa fascinante em que, dependendo das variáveis socioambientais, não haverá perdedor. Mistura fina da Agrishow com a Expozebu.

AGRÔNOMO, É SECRETÁRIO DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SÃO PAULO. E-MAIL: XICO@XICOGRAZIANO.COM.BRD

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.